domingo, 16 de maio de 2010

Vigilância e Visibilidade: espaço, tecnologia e identificação


Acaba de ser lançado o livro que organizei com Rodrigo Firmino e Marta Kanashiro: Vigilância e Visibilidade: espaço, tecnologia e identificação (Sulina, 2010). Vejam o release abaixo. Comunico em breve a data e o local do lançamento no Rio.


A Editora Sulina
apresenta
VIGILÂNCIA E VISIBILIDADE
Espaço, Tecnologia e Identificação
Orgs.
Fernanda Bruno, Marta Knashiro e Rodrigo Firmino
(Coleção Cibercultura)
Este livro parte de uma inquietação comum a diversos domínios de saber, de práticas sociais, de experiências e experimentações do espaço urbano, de produções midiáticas e artísticas: os parâmetros e limites segundo os quais estávamos habituados a ordenar o ver e o ser visto estão em trânsito. Ampliam-se e modificam-se as margens do visível, os modos de fazer ver, assim como os modos de ser visto. Desde o alto e da amplitude da “visão” dos satélites e tecnologias de geolocalização (GPS, GIS) até a visualização miniaturizada e individualizada das pequenas telas de celulares, palmtops e laptops, passando pelas câmeras de vídeo-vigilância cada vez mais presentes tanto nos espaços públicos quanto privados, ou ainda pelos discretos sensores e tecnologias que monitoram o espaço físico e o informacional, tornando sensíveis processos usualmente desapercebidos e criando o que se convencionou chamar de realidade ou espaço ampliados, assim como formas sutis de vigilância de dados.
Autores: André Lemos, Consuelo Lins, Danilo Doneda, David Lyon, David Murakami Wood, Fábio Duarte, Fernanda Bruno, Henrique Antoun, Hille Koskella, Marta Kanashiro, Maurício Lissovsky, Nelson Arteaga Botello, Paulo Vaz, Rafael Barreto de Castro, Rodrigo Firmino, Rosa Maria Leite Ribeiro Pedro, Teresa Bastos.
Capa: Letícia Lampert
Preço de Capa: R$ 38,00
Nº de páginas: 296
ISBN: 978-85-205-0553-3
Departamento editorial e divulgação: (51) 3019. 2102
http://www.editorasulina.com.br/detalhes.php?id=503
Editora Meridional/Sulina
www.editorasulina.com.br
Tel (51) 3311-4082
Fax (51) 3264-4194

domingo, 18 de abril de 2010

Sousveillance: makeup and camouflage

Logo após escrever o último post conheci este ótimo trabalho do Adam Harvey no campo da sousveillance (contra-vigilância). Uma série de projetos que driblam os sistemas de reconhecimento de face embutidos na vídeo-vigilância. Abaixo, o projeto de desenvolvimento de padrões de maquiagem capazes de enganar as câmeras e, em seguida, camuflagens baseadas em subversões dos algoritmos que operam reconhecimento de face.

domingo, 11 de abril de 2010

Intelligent Video Surveillance (I): o infra-individual e o controle


Uma das questões recorrentes acerca das sociedades de controle e das formas de vigilância que lhes são próprias, consiste nas possibilidades de subjetivação aí em jogo, uma vez que um aspecto do controle como regime de poder característico das sociedades contemporâneas é sua atuação e investimento no âmbito do que proponho chamar de "infra-individual", isto é, em "alvos" ou "targets", para usar uma terminologia comum no marketing, que não consistem no indivíduo enquanto totalidade, unidade ou interioridade, mas sim em ações, comportamentos, ritmos, movimentos, traços parciais - corporais, informacionais etc - que podem inclusive estar desvinculados, na sua base, de formas de identificação dos indivíduos que os originam.
Com essa questão no horizonte, resolvi explorar um dispositivo de vigilância relativamente "novo", que já me inquietava fazia algum tempo - a vídeo-vigilância inteligente -, que atualiza essa dimensão infra-individual do controle.
Esta exploração resultou num texto "A Brief Cartography of Smart cameras: proactive surveillance and control" que será publicado como capítulo do livro ICTs for Mobile and Ubiquitous Urban Infrastructures: Surveillance, Locative Media and Global Networks (Orgs. Rodrigo Firmino, Fábio Duarte e Clovis Ultramari) e numa conferência no Simpósio Internacional Identificación, Identidad y Vigilância en América Latina na UAEM, México (ver post). Reproduzo abaixo alguns trechos do meu texto e da conferência:

"O que é ou pretende ser a vídeo-vigilância inteligente? Este dispositivo é anunciado como uma nova “geração” da vídeo-vigilância que exerce modos de monitoramento automatizado do comportamento. Na maioria dos casos, pretende-se que tais câmeras reconheçam e diferenciem padrões regulares de conduta e ocupação do espaço, tidos como seguros, e padrões irregulares, categorizados como suspeitos, perigosos ou simplesmente não funcionais. As chamadas “smart cameras” ou “intelligent video surveillance” consistem em softwares que se adicionam às câmeras e filtram ou lêem em tempo real as imagens segundo algoritmos que ressaltam indivíduos, objetos, atitudes que devem ser o foco de atenção da “cena”, conforme as aplicações pré-definidas no sistema. Um corpo parado por um dado período de tempo muito próximo à faixa de segurança que antecede os trilhos de uma estação de metrô, por exemplo, deve ser automaticamente ressaltado no painel de vigilância de modo a possibilitar uma intervenção a tempo de impedir o possível salto mortal de um suicida potencial. O mesmo dispositivo pode ressaltar automaticamente na tela um objeto deixado na estação, indivíduos ou grupos de pessoas com comportamentos suspeitos, corpos se movimentando no contra-fluxo ou qualquer situação previamente categorizada como devendo ser destacada no campo atencional da máquina e/ou dos operadores de câmera. Nos termos técnicos:
Intelligent visual surveillance systems deal with the real-time monitoring of persistent and transient objects within a specific environment. The primary aims of these systems are to provide an automatic interpretation of scenes and to understand and predict the actions and interactions of the observed objects based on the information acquired by sensors. (Intelligent distributed video surveillance systems, Sergio A. Velastin, Paolo Remagnino, Institution of Electrical Engineers, 2006, p. 1)"
"Nesta delegação perceptiva e atencional são definidos e reiterados não apenas parâmetros técnicos e administrativos de eficiência, mas também parâmetros de visibilidade, vigilância e controle do espaço e do comportamento humano. É precisamente o que nos interessa destacar: tais sistemas evidenciam o que se define hoje como devendo ser visível e notável no campo da vigilância.
Num contexto de excesso de imagens e escassez de atenção, que é o caso dos operadores de vídeo-vigilância, mas também o das sociedades contemporâneas em geral, é preciso filtrar o que é relevante. Nestes sistemas, só vale ser visto, já está claro, o que é irregular, não usual.
Mas é preciso lembrar: o irregular é índice de ameaça ou suspeita, eis porque ele deve ocupar a frente da cena. Mais ainda: a irregularidade em questão não se confunde mais com os focos dos regimes de visibilidade disciplinares, que liam sob o desvio comportamental, uma alma anormal. Aqui, o desvio comportamental é índice de um risco iminente, de uma ação indesejada ou ameaçadora, não importando tanto as motivações ou traços psicológicos que subjazem à ação.
Claro que essa tarefa de flagrar irregularidades ou mesmo de antecipá-las, já está presente na vídeo-vigilância convencional e em outras formas de inspeção humana ou maquínica. Entretanto, neste caso, a atenção ao irregular já está incorporada à própria máquina de visão, tornando mais explícito o tipo de ordenação do visível aí presente, uma ordenação sob a ótica da suspeita, e que pretende se antecipar aos próprios eventos (...)
Ora, diferentemente da escala ótica disciplinar, os sistemas de vídeo-vigilância inteligentes colocam em cena uma observação do cotidiano que rastreia os corpos e os espaços por um movimento de varredura que não se preocupa tanto nem com a minúcia do detalhe nem com a objetivação das diferenças individuais que permitam ver através dos gestos, atividades e desempenhos, uma interioridade não menos rica em detalhes.
Trata-se de um olhar algorítmico menos atento aos detalhes e profundidades do que aos padrões de superfícies e movimentos dos corpos, os quais são apreendidos mais em seus contornos gerais do que em sua individualidade. Certos softwares utilizam, inclusive, o termo “silhouete” para designar os padrões correspondentes a determinados movimentos corporais."
"Nos encaminhamos para um segundo aspecto que pretendo destacar nestes sistemas: o foco de observação é menos a identificação dos indivíduos do que as suas ações e comportamentos; mais do que o agente, focaliza-se a ação. Num mundo altamente institucionalizado e mediado como o nosso, os mecanismos de controle, no lugar de focalizarem os suportes de uma consciência que sustenta a ação, se organizam em torno da própria ação (Lianos, 2008).
Vejam o que diz o pesquisador James W. Davis, responsável pela construção de um sistema de "intelligent video" voltado para análise de comportamento e antecipação de situações que possibilitem perseguir automaticamente um alvo suspeito, alem de incluir visão de 360O (fish-eye lens) e imagem de alta resolução:
We care what you do, not who you are. We aim to analyze and model the behavior patterns of people and vehicles moving through the scene, rather than attempting to determine the identity of people. ”
We are trying to automatically learn what typical activity patterns exist in the monitored area, and then have the system look for atypical patterns that may signal a person of interest -- perhaps someone engaging in nefarious behavior or a person in need of help”.
As smart cameras e seus sensores encarnam um tipo de poder e conhecimento sobre corpos, comportamentos e modos de habitação do espaço, que os monitora à distância, transformando em informação suas ações no espaço físico. Essas informações permitirão extrair padrões do que seriam as condutas regulares e do que seriam as condutas irregulares. Tais padrões devem, contudo, possibilitar intervenções, planejamentos, cálculos seja no campo da vigilância e da segurança, detectando comportamentos suspeitos, prevendo e prevenindo riscos, seja no campo da gestão, do consumo ou da ordenação dos corpos e seus fluxos, provendo esse espaço de informações que induzam trajetórias, capturem a atenção, mobilizem ações e interesses. A intelligent video surveillance, em certa medida, vai de par com os ambientes ditos inteligentes, que adicionam ao espaço camadas informacionais, ampliando as suas possibilidades de interação com os corpos presentes e permitindo que estes sejam interpelados de forma contextual pelo próprio ambiente em seu entorno. Nos termos de Manovich (2006),
By tracking the userstheir mood, pattern of work, focus of attention, interests, and so onthese interfaces acquire information about the users, which they then use to automatically perform the tasks for them. The close connection between surveillance/monitoring and assistance/augmentation is one of the key characteristics of the high-tech society.""

Referência dos trechos reproduzidos acima:
Bruno, Fernanda. A Brief Cartography of Smart cameras: proactive surveillance and control. In: Firmino, R; Duarte, F.; Ultramari, C. (Orgs). ICTs for Mobile and Ubiquitous Urban Infrastructures: Surveillance, Locative Media and Global Networks. IGI Book, 2010 (no prelo).

sábado, 10 de abril de 2010

Notas e impressões: Simpósio Internacional Identificación, Identidad y Vigilancia en América Latina

Antes tarde...eis aqui breves notas e impressões sobre o Simpósio Identidad, Identificación y Vigilância en América Latina. A conferência de abertura, proferida por David Lyon, forneceu um ótimo panorama sobre a temática geral do evento. Lyon é um dos pesquisadores mais importantes da área de "surveillance studies" e sua fala no evento focalizou seu último trabalho Identifying citizens: ID cards as surveillance, o qual recomendo a que tem interesse sobre o tema. Lyon explora o diagnóstico de que vivemos uma ampliação das formas de governo pela gestão da identidade (identity management). Chama atenção para a ambiguidade deste processo, que transita entre a cidadania e a discriminação. Esta ambiguidade reapareceu em vários trabalhos do Simpósio, mas de forma diferenciada. Simplificadamente, na América Latina, essa ambiguidade está menos atrelada ao temor do "outro", do estrangeiro, ou de uma ameaça que vem de "fora", do que às nossas complicadas dinâmicas de inclusão/exclusão social. Retomo este ponto adiante.
A conferência de Nelson Botello e Roberto Fuentes Rioda, organizadores do evento, foi excelente para visualizarmos o que os autores chamam de "guerra pela identidade" no México, especialmente presente no embate pelo controle das bases de dados sobre os cidadãos mexicanos, as quais estão divididas em dois grandes bancos - um biométrico e outro político - e que são mantidos apartados devido ao histórico de fraudes eleitorais no país. Em suma, o Estado não pode cruzar os dados biométricos com os dados geográficos dos indivíduos, uma vez que isso poderia a levar a abusos e manipulações. Outro dado significativo da fala de Botello e Rioda foi mostrar como a expansão dos dispositivos de vigilância no México estão atreladas ao sequestro e à morte do jovem Fernando Marti, que se tornou emblemática da "insegurança" justificando medidas nos mais diversos setores da segurança e da vigilância. Embora vejamos esses "casos exemplares" de grade repercussão midiática figurarem em outras partes do mundo, são especialmente notáveis as semelhanças com o Brasil. Nelson Arteaga Botello acaba de lancar o livro Sociedad de la Vigilancia en el Sur-Global: mirando América Latina (UEAM, 2009). Recomendo!
Participei como conferencista convidada e falei sobre "Vigilância proativa e controle: o caso da vídeo-vigilância inteligente". O debate com os colegas e o público presente foi ótimo e enriquecedor; espero fazer um post com mais detalhes sobre a conferência.
Entre os trabalhos apresentados no segundo dia, destaco o excelente trabalho de Hille Koskela sobre o Texas Virtual Border Watch. Foi interessante notar os desdobramentos do trabalho de Koskela e do seu próprio "objeto de análise" em relação à sua primeira apresentação no Simpósio de Curitiba: embora a retórica do Texas Virtual Border Watch permaneça fortíssima, os dados mostram o seu descontrole e fracasso em criar uma comunidade virtual de observadores-controladores de fronteira.
Um prazer também ouvir e ver o belo trabalho de Maurício Lissovsky sobre fotografias da polícia política brasileira. Agamben e Bakhtin numa exploração sobre os jogos de exibição e ocultamento, de observador e observado, de produção de marcas e autorias, de uma vigilância fotográfica marcada pela enunciação e que se torna, no fim, auto-retrato. Lindo trabalho, que nos ensina a exploração estética do olhar policial.
Ainda no campo da estética, foi uma ótima surpresa a participação de Milena Szafir com suas instigantes Performances Panopticadas. Conhecia apenas superficialmente o trabalho da Milena, que promove um ótimo curto-circuito entre a vigilância, a arte e o espetáculo, e foi uma grata satisfação rever suas performances no Simpósio.
Retornando ao tema da identificação e da vigilância, os ótimos trabalhos de Marta Kanashiro & Danilo Doneda e de Rodrigo Firmino & David Wood levaram ao público mexicano uma ótima reflexão sobre as tensões entre inclusão/exclusão, cidadania/controle na gestão da identidade civil no Brasil. Kanashiro & Doneda focalizam a implementação do Registro Único de Identidade Civil, enquanto Firmino & Wood questionam as fronteiras entre a cidadania e o controle nos sistema de identificação no Brasil.
Dentre os trabalhos relacionados à vida, à política, ao território e às identidades mexicanas, foi especialmente bom ouvir as pesquisas sobre as identidades indígenas no México, com as quais aprendi um pouco sobre a riquíssima e complexa cultura mexicana e seus embates identitários.
Last but not least: meus agradecimentos especialíssimos a Nelson Arteaga Botello, Roberto Fuentes Rioda e Vanessa Lara e toda a equipe da UAEM pela excelente organização do Simpósio, pela acolhida e hospitalidade impecáveis e pelos saborosíssimos momentos sociais e gastronômicos. Gracias!
Este segundo Simpósio da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância foi fundamental para a consolidação desta rede e dela esperamos ótimos desdobramentos acadêmicos, intelectuais e políticos. O próximo Simpósio deve acontecer na Argentina, mas ainda está sujeito a confirmação.

terça-feira, 16 de março de 2010

Simposio Identidad, Identificatión y Vigilancia en América Latina


Começa hoje o Simpósio Internacional Identidad, Identificación y Vigilancia en América Latina na bela Universidad Autónoma des Estado de México. David Lyon faz a conferência de abertura - "Por favor, muéstreme su identificación: surveillance and identification in Latin América". Amanhã farei a primeira conferência do dia, cujo tema é "Vigilância proativa e controle: o caso da vídeo-vigilância inteligente". Mais duas conferências estão no programa do Simpósio: "Privacidad y identificación: el contexto latinoamericano", de Katitza Rodríguez (EPIC, International Privacy Program) e "Transparencia y protección de datos en México", de Hiram Piña Libién (Universidad Autónoma des Estado de México).
Além das conferências, diversos pesquisadores apresentarão seus trabalhos em mesas ao longo dos três dias do Simpósio. A programação completa está disponível aqui e espero postar as minhas impressões a cada dia do evento. Acompanhe também os posts do twitter, mais breves porém mais próximos do tempo do evento.
Saludos!

quinta-feira, 4 de março de 2010

Cuide de você (Comentário de Ilana Feldman)

Reproduzo o ótimo comentário que Ilana Feldman fez sobre meu último post acerca da exposição Cuide de Você (Sophie Calle). Assim que o tempo permitir, continuo o diálogo e agradeço desde já a Ilana por me dar a rara oportunidade de fazer a palavra circular neste blog.


"Fernanda,

Um prazer ler teus belos comentários. E este mesmo prazer me mobiliza a comentar algumas estratégias da Calle que, me parecem, caminham em sentido reverso do que dizes.

De antemão, é preciso dizer que vi a exposição aqui em São Paulo, no Sesc Pompéia, então minha percepção advém também de certa organização do espaço. Tendo em vista essa organização e disposição dos elementos na “cena”, meu primeiro questionamento, de saída, é a presença da carta original de X, na verdade um email, impressa em papel e distribuída aos espectadores ao final do percurso. Ora, se a exposição trata, prioritariamente, da questão da mediação, mediação que, a partir de leituras, análises, interpretações e dissecações de 107 leitoras, permite que mentalmente (e inventivamente) remontemos e reescrevamos esta, vale dizer, banal carta, por que a carta de X, a “carta em sim mesma”, precisa nos ser então revelada? Este gesto para mim, ao contrário de “multiplicar os lugares de fala a partir das passagens do individual ao coletivo” (algo que belamente acontece no filme Jogo de cena, de Eduardo Coutinho, como já comentaste aqui no blog), resvala em unívoca, estreita e simplória “vontade de verdade” (Nietzsche). Contraditoriamente então, em vez do elogio (ou da problematização) da mediação, temos simplesmente uma resposta a um desejo (tão culturalmente sedimentado) de acesso à verdade de uma suposta imediatez: o objeto de disputa e de discurso em si mesmo, fetichizado.

Outro ponto que me parece importante diz respeito ao repertório - burguês - dessas 107 mulheres escolhidas, cujas posições sociais são praticamente homogêneas, à exceção da papagaia, claro, da agente penitenciária e da adolescente dona do melhor comentário: “Ele se acha!”. Toco nessa questão da posição social porque o dispositivo que sustenta a exposição me parece sofrer de uma grave entropia: no geral, a diversidade das leituras encobre, a meu ver, uma mesma posição discursiva, uma mesma posição sentimental, marcada pelos códigos de reação do melodrama burguês - o ressentimento feminino -, ainda que vez ou outra haja algum humor. Porém, como Sophie Calle não é boba, o que ela faz para evitar esse lugar (re)sentimental? Ela convida profissionais liberais, mulheres “bem sucedidas”, dotadas de “talento” e de expertise técnica para “interpréter la lettre sous un angle professionnel”. Esta é a estratégia que mais me choca porque, ainda que ela seja uma interessante “arma” para a vingança do abandono e do amor perdido, ela se equipara a todas as outras estratégias de tecnificação e instrumentalização da linguagem. Estratégias que, como sabemos, sustentaram os mais terríveis regimes políticos e ainda hoje sustentam os mais terríveis modos de gestão empresarial.

Por fim, como o nome da exposição já diz, o “cuidado de si” - ainda que capitalizado na forma de um dispositivo “artístico e terapêutico”, como dizes - foi tornado um modo de gestão e administração da dor em que o feminino, no lugar do espaço coletivo e social da partilha, da transgressão e da traição (em relação à tradição), é revertido em mera “consultoria”.

Bem, Fernanda, desculpe o tão longo comentário, mas essa exposição me fez sair engasgada, para não dizer irada, e só a riqueza do teu post para me fazer conseguir desengasgar.

Beijo, Ilana"

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Cuide de você/Prenez soin de vous

Já no peúltimo dia no MaM/Rio, fui ver a exposição da Sophie Calle (Cuide de Você). Para quem não viu, a "pedra de toque" da exposição é um e-mail de ruptura amorosa escrito por "X", ex-namorado da artista. A partir desta carta, S. Calle cria mais um dos seus dispositivos a um só tempo artístico e terapêutico. Este é, ainda, especialmente feminino e vinga com humor o abandono chamando 107 mulheres para interpretar a carta, segundo seus talentos ou profissões: tradutora, filóloga, psiquiatra, atiradora, atriz, crimonologista, bailarina, juíza, musicista, cabalista, diplomata, vidente, mãe, muitas outras, e mesmo uma papagaia.

"J' ai reçu un mail de rupture. Je n'ai pas su répondre. C'était comme s'il ne m'était pas destiné. Il se terminait par ces mots : Prenez soin de vous. J'ai pris cette recommandation au pied de la lettre.J'ai demandé à cent sept femmes - dont une à plumes et deux en bois -, choisies pour leur métier, leur talento, d'interpréter la lettre sous un angle professionnel. L'analyser, la commenter, la jouer, la danser, la chanter. La disséquer. L'épuiser. Comprendre pour moi. Parler à ma place. Une façon de prendre le temps de rompre. A mon rythme. Prendre soin de moi."


Tomar ao pé da letra o cuidado de si é, no dispositivo de Calle, fazer circular a palavra, coletivizar a hermenêutica arrancando-a do retorno sobre si para dotá-la de um outro movimento, voltado para fora e para muitos, para outrem. Ao ponto que, ao final, a letra original implode por excesso de interpretação. No fim da exposição, mesmo antes, pouco importa o que escreveu X, pouco importa X; as versões, traduções, traições, reações, revisões, dissecções do seu texto interessam tão mais que sua forma e conteúdo originais!

O apagamento da dor e do amor perdido é o apagamento do próprio texto de X; vingança sob medida em se tratando de um escritor. Melhor que "deletar", queimar ou responder eloquentemente é oferecer o texto de X à sobre-interpretação pública, feminina e profissional - não há dor, amor, escritor que resista a um tal dispositivo. Em certos momentos, o dispositivo vai além do humor, franqueando de forma inquietante o limite da exposição do outro, e é o cômico (em sua face ridícula, no sentido que lhe atribui Aristóteles) que vige sobre X e sua carta.
Esse destino do texto (e aqui já saio um pouco da exposição ou nela abro parênteses) é o destino e o risco de toda escrita, como indica a bela leitura que Derrida faz do Fedro de Platão: a palavra escrita perde seu detentor, seu defensor, seu pai, arrisca afastar-se da verdade (no sentido platônico) e vagar por toda parte, sujeita a sentidos diversos. A escrita também é um phármakon, um artifício a um só tempo remédio e veneno, que vem em auxílio da memória, mas que a trai e a enfraquece, favorecendo a rememoração em detrimento da reminiscência (via régia do conhecimento verdadeiro para Platão). E agora enquanto escrevo me dou conta que a minha lembrança do Fedro tem ainda um outro sentido que a conecta com a exposição, uma vez que neste diálogo o problema da escrita é intimamente atrelado à questão "o que é o amor?".
Seguindo o fio das associações despertadas por Calle e retomando o que acho mais interessante neste e em outros trabalhos da artista (como o Douleur Exquise, muito mais belo): a expiação da dor pela multiplicação dos lugares de fala, pela passagem do individual ao coletivo, do dentro ao fora, do eu ao muitos ou a outrem. Estamos próximos aqui do sentido que Nietzsche quer potencializar na dor - não o sentido interno e íntimo, consequência de um erro confinado numa interioridade voraz, mas o sentido externo, ativo, em que "a dor não é um argumento contra a vida, mas, ao contrário, um excitante da vida, 'uma isca para a vida', um argumento em seu favor". (Deleuze, G. Nietzsche e a Filosofia).

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Culpado pelo cérebro


Bom, a culpa tem uma bela e conhecida trajetória na história ocidental - da matriz judaico-cristã ao ideal ascético da metafísica, como nos ensina a melhor genealogia da culpa: "Esse homem que, por falta de inimigos e resistências exteriores, cerrado numa opressiva estreiteza e regularidade de costumes, impacientemente lacerou, perseguiu, corroeu, espicaçou, maltratou a si mesmo, esse animal que querem 'amansar', que se fere nas barras da própria jaula, este ser carente, consumido pela nostalgia do ermo, que a si mesmo teve de se converter em aventura, câmara de tortura, insegura e perigosa mata - esse tolo, esse prisioneiro presa da ânsia e do desespero tornou-se o inventor da 'má consciência'" (Nietzsche, A genelogia da moral).
Mais tarde, engrossam o caldo da má consciência todo um rol de saberes "psi", juntamente com todo um conjunto de práticas burguesas e institucionais. A culpa torna-se o afeto por excelência da subjetividade moderna.
Ao lado e cruzando a dimensão subjetiva e afetiva da culpabilidade, um outro percurso, de ordem jurídica e biológica, a inscreve não apenas nos atos e nos fatos, mas nos corpos dos indivíduos. Desde a antropologia criminal de Lombroso, que associava traços físicos e fisionômicos a almas criminosas, até os catálogos de dedos e orelhas de Bertillon (que faziam da medida antropométrica um instrumento de identificação criminal), passando pelo polígrafo (vulgo detector de mentiras) e laudos psiquiátricos, a aliança entre o jurídico, o tecnológico e o biológico não cessa de se sofisticar na busca de provas corporais da culpa.
A última novidade de que tomei conhecimento vem de recentes investimentos de um ramo das neurociências na busca por evidências cerebrais da culpa criminal. Os termos são assustadores e ressoam as mais distópicas ficções, mas vêm ganhando cada vez mais realidade nos últimos anos (vejam essa matéria). "Brain fingerprint" e "brain electrical oscillations signature" são algumas das técnicas que buscam ler ou visualizar no cérebro provas de culpa, lembrando a mais reacionária frenologia. A "brain fingerprint" visa detectar, por exemplo, um tipo memória que apenas culpados teriam. Para mais detalhes desse gênero de pesquisa, vejam o artigo "Neurolaw".
Tais evidências cerebrais fazem parte de uma série de pesquisas com aplicações as mais diversas, da criminologia ao marketing (via neuromarketing), que supõem que o cérebro não mente, ou ainda, que ele detém mais conhecimento sobre o eu (suas inclinações, preferências, traços de personalidade, registros mnemônicos) do que o seu portador. Esta perspectiva aposta no declínio da subjetividade psicológica, narrativa e hermenêutica, cuja "verdade" implica colocar a si mesmo em discurso e se oferecer a uma cadeia de interpretações que passa pelo outro (o terapeuta, o psicanalista), mas cujo sentido implica necessariamente a enunciação de si e a linguagem. Sim, a culpa moderna encontrou aí (nessa subjetividade interiorizada e hermenêutica) uma sede privilegiada, mas esta subjetividade não se esgotou no circuito da culpabilidade e produziu sentidos, modos de vida que abriram brechas no modelo confessional e na má consciência, sobretudo a partir dos anos 1960.
O espantoso nessa nova técnica de culpabilidade cerebral é que, ao confiscar a linguagem, ela aliena o sujeito tanto de si mesmo quanto do processo que decide a sua vida, tornando-o impotente frente à evidência cerebral cujo saber reside inteiramente no outro.

Você está aqui

Mais uma entre milhares de matérias que circulam na rede hoje sobre as boas novas da geolocalização e suas ferramentas que "revolucionarão" os negócios, as buscas, as redes sociais, os usos da Internet. Na matéria do Link/Estadão, cujo título (duvidoso) é "Você vai querer que todo mundo saiba onde você está" são ressaltadas as vantagens e praticidades dos novos serviços de geolocalização que acompanharão os mecanismos de busca, as redes sociais etc. Se tais serviços se popularizam, a já imensa massa de dados de usuários que circula no ciberespaço ganhará essa camada de geolocalização, com implicações importantes para os mapas e taxonomias dos usuários das redes e mídias digitais contemporâneas. Que esses dados não fiquem confinados às estratégias do marketing, da vigilância e do pragmatismo tecnológico e ganhem a inventividade das ruas, em proveito de cartografias alternativas. Felizmente, isso já acontece; e o que hoje ainda está prioritariamente no circuito da arte e do ativismo pode, assim esperamos, se espalhar em proporções cotidianas.