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sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Punição e voyeurismo


Post do Polis + Arte chama atenção para uma das imagens que O Globo publicou na matéria sobre a prisão da esposa de Fernandinho Beira-Mar. Na foto comentada por Cezar Migliorin, aparece uma "outra acusada" com o rosto coberto e parte da sua calcinha flagrada no momento em que a mulher era retirada da traseira de um carro da polícia. A imagem em questão se coloca numa zona ética que oscila entre o paparazzo da revista de fofoca e a intimidação policial, aliando punição e voyeurismo. Nas palavras de Migliorin:

"É sempre perturbador ver o lugar em que se coloca o jornalista que faz uma escolha como esta. Incorpora uma mistura de editor de site erótico com página policial e Revista Caras. Tudo feito com muita prepotência e desrespeito.
Se ela será condenada ou não é secundário. O que interessa é punir com espetáculo.
Enquanto a acusada cobre o rosto o jornal mostra sua calcinha, fazendo a punição retornar ao corpo, não como suplício mas como humilhação que passa pela imagem."

Vou forçar um pouco mais a comparação com o suplício para levantar uma questão. Um dos aspectos interessantes da análise que Foucault faz de toda a atrocidade presente no suplício reside nas desordens e desarranjos que lhe são inerentes. Ainda que o corpo supliciado fosse reduzido a uma técnica quantitativa da dor e das sensações insuportáveis que alimentavam e garantiam o espetáculo e a glória do poder, uma margem mínima de resistência ainda lhe restava: blasfemar e maldizer, ao abrigo da morte, os juízes, o poder, as leis, a religião. Ao condenado que não tem mais nada a perder, o suplício permite essas "saturnais de um instante em que nada mais é proibido nem punível". Mas a maior desordem e resistência provinha do corpo da multidão e do povo, principal personagem do suplício, e no qual muitas vezes reverberava a fala do supliciado, invertendo os efeitos previstos. Diz Foucault: "há nessas execuções, que só deveriam mostrar o poder aterrorizante do príncipe, todo um aspecto de carnaval em que os papéis são invertidos, os poderes ridicularizados...para o povo que aí está e olha, sempre existe, mesmo na mais extremada vingança do soberano, pretexto para uma revanche..." Ou ainda para se reforçar a solidariedade do povo com os supliciados, o que era o maior perigo político para o poder e que acabou sendo uma das causas do desaparecimento do suplício.

Mas todo esse recuo é para colocar uma questão. No suplício, o corpo pode resistir pela blasfêmia ao abrigo da morte ou pela revanche da multidão à beira do cadafalso. A questão aqui é: Como o corpo pode resistir a uma imagem?

sábado, 25 de agosto de 2007

Jornalismo e Vigilância


Imagem do Globo.com
Post do Polis + Arte aponta o quanto os procedimentos adotados por fotógrafo do Jornal O Globo na matéria Voto combinado na rede reiteram a naturalização do uso de câmeras para violar a privacidade alheia. O fotógrafo capturou imagens do computador do ministro do STF enquanto este trocava mensagens com outra ministra pela intranet, divulgando o seu conteúdo na imprensa. Creio ser indiscutível a violação de privacidade implicada neste tipo de procedimento. Mais um caso de uma série de outros usos indevidos e ilegais de métodos de vigilância e de invasão de privacidade por parte de jornalistas que, curiosamente, bradam pela "ética". Vale uma análise aprofundada dos procedimentos de vigilância e violação de privacidade que vêm sendo corriqueiramente adotados tanto pelo jornalismo brasileiro quanto pela polícia federal em suas empreitadas na busca de escândalos na política nacional.