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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Cotas na UFRJ: Carta Aberta

Carta aberta sobre as cotas na UFRJ
Ao contrário do que pretendem afirmar alguns setores da imprensa, o debate em torno de políticas afirmativas e de sua implementação no ensino universitário brasileiro não pertence à UFRJ, à USP ou a qualquer setor, "racialista" ou não, da sociedade. Soma-se quase uma década de reflexões, envolvendo intelectuais, dirigentes de instituições de ensino, movimentos sociais e movimento estudantil, parlamentares e juristas.
Atualmente, cerca de 130 universidades públicas brasileiras já adotaram políticas afirmativas - entre as quais, a das cotas raciais - como critério de acesso à formação universitária. Entre estas instituições figuram a UFMG, a UFRGS, a Unicamp, a UnB e a USP, que estão entre as mais importantes universidades brasileiras.
Em editorial da última terça-feira, 17 de agosto, intitulado "UFRJ rejeita insensatas cotas raciais", o jornal O Globo assume, de forma facciosa, uma posição contrária a essas políticas afirmativas. O texto desmerece as ações encaminhadas por mais de cem universidades públicas e tenta sugestionar o debate em curso na UFRJ. Distorcendo os fatos, o editorial fala em "inconstitucionalidade" da aplicação do sistema de cotas, quando, na verdade, o que está em pauta no Supremo Tribunal Federal não é a constitucionalidade das cotas, mas os critérios utilizados na UnB para a aplicação de suas políticas afirmativas.
Na última década, enquanto a discussão crescia em todo o país, a UFRJ deu poucos passos, ou quase nenhum, para fazer avançar o debate sobre as políticas públicas. O acesso dos estudantes à UFRJ continua limitado ao vestibular, com uma mera pré-seleção por meio do ENEM, o que significa um processo ainda excludente de seleção para a entrada na universidade pública. Apesar disso, do mês de março para cá, o debate sobre as cotas foi relançado na UFRJ e, hoje, várias decisões podem ser tomadas com melhor conhecimento do problema e das posições dos diferentes setores da sociedade em relação ao assunto.
Se pretendemos avançar rumo a uma democracia real, capaz de assegurar espaços de oportunidades iguais para todos, o acesso à universidade pública deve ser repensado. Isto significa que é preciso levar em conta os diferentes perfis dos estudantes brasileiros, em vez de seguir camuflando a realidade com discursos sobre "mérito" (como se a própria noção não fosse problemática e como se fosse possível comparar méritos de pessoas de condição social e trajetórias totalmente díspares) ou sobre "miscigenação" (como se não houvesse uma história de exclusão dos "menos mestiços" bem atrás de todos nós).
Cotas sociais - e, fundamentalmente, aquelas que reconhecem a dívida histórica do Brasil em relação aos negros - abrem caminhos para que pobres dêem prosseguimento aos seus estudos, prejudicado por um ensino básico predominantemente deficiente. Só assim os dirigentes e professores das universidades brasileiras poderão continuar fazendo seu trabalho de cabeça erguida. Só assim a comunidade universitária poderá avançar, junto com o país e na contra-mão da imprensa retrógrada, representada por O Globo, em direção a um reconhecimento necessário dos crimes da escravidão, crimes que, justamente, por ainda não terem sido reconhecidos como crimes que são, se perpetuam no apartheid social em que vivemos.
Rio de Janeiro, 19 de agosto de 2010
Assinam os professores da UFRJ:
Alexandre Brasil - NUTES
Amaury Fernandes – Escola de Comunicação
André Martins Vilar de Carvalho - Filosofia/IFCS e Faculdade de Medicina
Anita Leandro – Escola de Comunicação
Antonio Carlos de Souza Lima – Museu Nacional
Clovis Montenegro de Lima - FACC/UFRJ-IBICT
Eduardo Viveiros de Castro – Museu Nacional
Denilson Lopes – Escola de Comunicação
Fernando Rabossi - IFCS
Fernando Alvares Salis – Escola de Comunicação
Fernando Santoro - IFCS
Flávio Gomes - IFCS
Giuseppe Mario Cocco - Professor Titular, Escola de Serviço Social
Heloisa Buarque de Hollanda – Professora Titular, Escola de Comunicação/FCC
Henrique Antoun - Escola de Comunicação
Ivana Bentes – Diretora, Escola de Comunicação
Katia Augusta Maciel - Escola de Comunicação
Leonarda Musumeci – Instituto de Economia
Lilia Irmeli Arany Prado – Observatório de Valongo
Liv Sovik – Escola de Comunicação
Liz-Rejane Issberner - FACC/UFRJ-IBICT
Marcelo Paixão – Instituto de Economia
Marcio Goldman – Museu Nacional
Marildo Menegat – Escola de Serviço Social
Marlise Vinagre - Escola de Serviço Social
Nelson Maculan - Professor titular da COPPE e ex-reitor da UFRJ
Olívia Cunha – Museu Nacional
Otávio Velho – Professor Emérito, Museu Nacional
Paulo G. Domenech Oneto – Escola de Comunicação
Renzo Taddei – Escola de Comunicação
Roberto Cabral de Melo Machado - IFCS
Samuel Araujo – Escola de Música
Silvia Lorenz Martins - Observatorio do Valongo
Suzy dos Santos – Escola de Comunicação
Tatiana Roque – Instituto de Matemática
Virgínia Kastrup – Instituto de Psicologia
Silviano Santiago, Professor emérito, UFF
Alabê Nunjara Silva, graduando em RI, UFRJ
Fernanda Bruno - Instituto de Psicologia (*assinado agora, no momento deste post)

sábado, 14 de março de 2009

Curso Pós-Eco: Vigilância, Atenção e Subjetividade


Iniciei na semana passada a disciplina Tecnologias da Comunicação e Subjetividade no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRJ. O tema do curso é "Vigilância, Atenção e Subjetividade" e a proposta geral é cruzar duas matrizes decisivas das práticas de vigilância tanto modernas quanto contemporâneas: a matriz que poderíamos vincular mais estreitamente ao exercício do poder - disciplina, controle - e a matriz ligada às tecnologias do espetáculo. Claro que essas matrizes se alimentam e se entrecruzam intensamente na atualidade. A idéia é ver como se dão esses cruzamentos, buscando apreender os processos de atenção, participação e subjetivação aí implicados.
Na próxima aula, tratarei da matriz disciplinar e seu regime de visibilidade na Modernidade. Foucault é o autor central aqui e pretende-se nesta aula não apenas compreender os conteúdos dessa matriz, tal como ele a analisa, mas também o modo como a sua teoria das visibilidades é uma estratégia de seu próprio pensamento.
Além disso, se houver tempo, também analisarei como as tecnologias de produção de imagens dos indivíduos, sobretudo a fotografia, participam desse regime regime de visibilidade, constituindo, de um lado, um modo particular de registro, identificação e conhecimento da individualidade e, de outro, uma extração de tipos, médias, padrões e normas que deveriam expressar e governar categorias gerais das populações.
Os textos de referência são:
FOUCAULT, M. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 1987
_________ "O olho e o Poder" in Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1993
_________ História da Sexualidade 1 (Cap. IV O dipositivo). Rio de Janeiro: Graal, 1984.
______ As palavras e as coisas (Prefácio). São Paulo: Martins Fontes, 1990
(ver outros)
RAJCHMAN, J. “Foucault’s art of seeing”, October, n. 44, printemps, 1988.
DELEUZE, G. Foucault (Capítulo – Os estratos ou formações históricas: o visível e o enunciável). Lisboa: Vega.
MILLER, J-A. (2000). “A máquina panóptica de Jeremy Bentham” in SILVA, T.T. (Org). O Panóptico. Belo Horizonte: Autêntica.
JAY, M. “Les régimes scopiques de la modernité” in Réseaux, n. 61, septembre-octobre, 1993.
TAGG, J. “The currency of photograph” in Burgin, Victor (Org). Thinking photography. Londres: Macmillan, 1982.
SEKULA, A. "The Body and the Archive". In: October 39: 3-64, 1986.