
Estou residindo em Paris por um ano para um pós-doutorado na
Sciences Po Paris. O ano letivo começa em setembro e estarei vinculada a dois núcleos de pesquisa: o
SUERTE/CERI e o
MÉDIALAB. O Suerte/CERI é coordenado por
Didier Bigo, meu orientador, e desenvolve pesquisas sobre as evoluções nas práticas contemporâneas de segurança e vigilância na Europa e na América do Norte. A minha participação no Suerte/CERI tem dois focos principais. Primeiro, discutir os processos globais de vigilância na sociedade contemporânea, cotejando as particularidades da Europa, da America do Norte e do Brasil. Este cotejamento é de grande interesse para o meu projeto, uma vez que ele integra a Rede de Estudos sobre Visibilidade, Vigilância e Tecnologia na America Latina, da qual sou membro-fundadora. Além disso, há uma especial oportunidade de discutir com este grupo questões relativas ao monitoramento e vigilância de dados no ciberespaço, tema de interesse comum. Esta oportunidade é enriquecida pelos vínculos que o grupo SUERTE/CERI e seu coordenador mantêm com outros núcleos de pesquisa. A saber, o
IN:EX (Converging and conflicting ethical values in the internal/external security continuum), que analisa tecnologias de monitoramento de dados e empresas de segurança, dando prosseguimento ao programa europeu de pesquisa sobre liberdade e segurança na Europa (
Challenge); e o
LISS – Living in Surveillance Society, que trata de questões relativas à vigilância na vida cotidiana, sobretudo aquelas atreladas às tecnologias de informação e de comunicação.
O
MEDIALAB/Sciences Po, dirigido por
Bruno Latour e Dominique Boullier, é um laboratório inspirado na estrutura criada pelo Medialab do Massachusetts Institute of Technology (MIT) de Cambridge, mas com propósitos específicos, não sendo uma réplica deste último. Trata-se de um laboratório de mídias digitais voltado para os meios de comunicação e de produção de dados engendrados pelas novas tecnologias de informação e de comunicação (NTIC). Estabelecendo conexões entre as novas tecnologias, a pesquisa e o ensino, o MEDIALAB/Sciences Po encontra a sua particularidade na renovação profunda da pesquisa em ciências sociais e políticas, tanto dos seus métodos de trabalho como das abordagens de seus objetos. Esta renovação tem como eixo central as transformações recentes desencadeadas pelas novas tecnologias de informação e de comunicação, especialmente aquelas relativas às capacidades e monitoramento e rastreamento de dados sobre opiniões, atitudes, trajetórias no ciberespaço. Nas palavras de Bruno Latour, diretor do MEDIALAB/Sciences Po, tais tecnologias abriram a possibilidade de “traçabilité du social”, o que se configura numa valiosa oportunidade de renovação dos aportes teóricos e sobretudo metodológicos das ciências sociais, possibilitando a criação de métodos “quali-quantitativos”. Ainda segundo Latour, “depuis une quinzaine d'années, de très nombreuses autres formes de « traçabilité » ont vu le jour. Elles consistent pour l'essentiel à identifier la « trace » que les membres des sociétés développées laissent derrière eux par le simple fait d'utiliser une technique numérique quelconque. Les réservoirs de données ainsi disponibles sont immenses et largement inexploités. Ils remettent en cause la distinction entre agrégat et individu puisqu'il est possible de suivre quantitativement des carrières individuelles en très grand nombre. D'où l'expression de méthode ‘quali-quantitative’. Aucun des secteurs de l'enseignement et de la recherche en sciences sociales ne peut aujourd'hui se passer de l'apprentissage et du développement de ces méthodes.”
É precisamente esta atenção às formas de monitoramento e rastreamento de dados sobre indivíduos, hábitos, interesses, comportamentos etc no ciberespaço, bem como a proposta de desenvolver metodologias “quali-quantitativas” de análise destes dados que mobilizou o meu interesse pelo Médialab/Sciences Po.
A participação nestes dois permitem conectar os estudos sobre vigilância e as tecnologias de comunicação e de informação, integrando dois campos de interesse das minhas pesquisas atuais. Veremos como tudo se passará a partir de setembro.