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sábado, 16 de agosto de 2008

Cartografia e vigilância (1)


Mapamundi, Battista Agnese,Veneza, 1540

Tenho pesquisado sobre as relações entre a cartografia e a vigilância, que são tão antigas quanto variadas. No âmbito visual, os mapas (especialmente aqueles que se inserem na tradição das Imago Mundi) encarnam uma perspectiva de sobrevôo, cara ao olhar vigilante e suas múltiplas figuras míticas ou históricas. Olho de Deus, Ícaro, pássaro, esta visão cartográfica é suficientemente distante e alta para abarcar uma 'totalidade' qualquer, sendo 'pan-optica' por excelência. Não por acaso, os mapas são decisivos na arte da guerra e das conquistas territoriais, demarcando e materializando fronteiras. A partir do século XVII, essa visão cartográfica é inclusive associada à "perspectiva militar ou cavalière" (Comar, 1992), designando um olhar global a partir do qual a ordem é lisível em detalhe e onde a invisibilidade do todo se inscreve na visibilidade do plano.
O mapa e a perspectiva cartográfica como dispositivos de controle e vigilância do território não se restringem, contudo, ao domínio visual, sendo importantes imagens da razão científica moderna e sua ordem representacional, ainda que de forma menos direta. Em tal ordem, a visão-idéia clara e distinta do mundo é tributária de um olho cognoscente que se coloca à distância e em sobrevôo (como diz Husserl a propósito da razão cartesiana). Segundo essa perspectiva, a verdade do mundo só é visível pela representação, mais clara no plano cartográfico do que nas dobras e confusões do corpo a corpo com o mundo. A racionalidade científica moderna confunde-se com a racionalidade cartográfica, como nos mostram o Astrônomo e o Geógrafo de Vermeer. Além disso, a projeção cartográfica, o mapa convencional, simula uma perspectiva apreendida ao mesmo tempo de todos os ângulos e de lugar nenhum, fazendo o pan-optico e o sinóptico conviverem, representando uma ordem supostamente neutra segundo a qual o mundo se oferece como um objeto estável de conhecimento, supervisão, inspeção, controle, domínio.

Geógrafo, Vermeer, 1668
As linhagens etimológicas também cruzam o ato de vigiar à produção de mapas, especialmente explícito na palavra "survey", que vem do latim supervidere (super-visão) e que a partir do século XVI passa a significar também o ato de produzir mapas. Essa descoberta eu devo a um post do André Lemos (que aliás tem escrito e exercitado ótimas coisas sobre mapas); diz ele:
"Lendo sobre mapas e cartografias (ver, por exemplo, "The World Through Maps, A History of Cartography", de John Short), é comum ver associado o ato de produzir mapas com "surveying", que está diretamente ligado a "surveillance", ou seja, mapas como representação de um determinado olhar. Como explica Short, "survey began to mean a mapping exercice"... "Survey" em português tem o sentido de "relatório", "enquete", "exame"... Trata-se, mais precisamente, de uma forma de "olhar atenciosamente para algo" ou de "examinar dados de áreas" ou "construir mapas".

Por fim, uma agradável descoberta que ainda preciso checar com mais calma e cuidado, mas que já vale ser mencionada, embora não toque no tema da vigilância. Ao que parece, vem da nossa língua portuguesa a palavra cartografia (que reúne o latim charta (folha de papel) e o grego graphein (escrever, pintar, desenhar), e surge tardiamente no século XIX. Segundo Beatriz Bueno (2004), o neologismo teria sido inventado pelo historiador português Manoel Francisco de Barros e Sousa (1791-1865), II visconde de Santarém, e redigido numa carta de 8 de dezembro de 1839 endereçada ao historiador brasileiro Francisco Adolfo Varnhagen, em que diz – ‘invento esta palavra, já que aí se tem inventado tantas’”. (Ávila, 1993, p. 110 apud Bueno, 2004).

Brasil, Miller Atlas, 1519

Referências:
Comar, P. La perspective en jeu. Paris: Découvertes-Gallimard, 1992
Buci-Glucksmann, C. L'oeil cartographique de l'art. Paris: Galilée, 1996.
Bueno, B. P. S. "Decifrando mapas: sobre o conceito de "território" e suas relações com a cartografia" in Anais do Museu Paulista, USP, n. 12, 2004.
Short, J. S. The World Through Maps: A History of Cartography. Firefly Books, 2003.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Cartografias da vídeo-vigilância

Compartilho uma seleção, acompanhada de breve descrição, dos atuais projetos de mapeamento de câmeras de vigilância pelo mundo que se encontram disponibilizados na Internet. A seleção e as descrições foram realizadas pelos bolsistas Luisa Motta, Débora Petersen e Maicon Pereira, que participam deste projeto de pesquisa e estão realizando, sob minha orientação, um mapeamento das câmeras de vigilância em espaços públicos na cidade do Rio de Janeiro.

Observing Surveillance (Washington DC, EUA)
O Observing Surveillance Project foi desenvolvido após os atentados de 11 de setembro para documentar a presença de câmeras de vigilância em Washington DC. No ano de 2002, a equipe do “Electronic Privacy Information Center” (EPIC) assumiu a realização do projeto, que vem sendo elaborado em cooperação com o “Freedom of Information Act litigation”. Atendendo aos requerimentos deste, o EPIC, através do “Metropolitan Police Department” e do “Park Police”, determinou a abrangência das operações de vídeo vigilância em DC. O material pesquisado foi incorporado à exposição do Observing Surveillance. De acordo com os documentos obtidos pelo EPIC, nos últimos anos, o “Metropolitan Police Department” usou vídeo-vigilância de helicópteros para monitorar manifestações políticas em Washington DC.
O principal objetivo do Observing Surveillance é promover um debate público sobre a presença de câmeras de vigilância em Washington DC. Para fomentar tal discussão, o grupo passou a produzir cartões postais que mostram as câmeras de vigilância, sobretudo aquelas localizadas em frente ao FBI e ao departamento de justiça dos EUA. Através da montagem de várias fotos num mesmo cartão, o grupo Observing Surveillance busca mostrar as inúmeras câmeras de vigilância presentes em Washington. Além disso, o projeto modifica mapas turísticos, acrescentando neles a indicação da localização das câmeras de vídeo-vigilância, o que possibilita aos turistas decidirem se querem ou não visitar esses locais.
O Observing Surveillance também elabora documentários digitais, que misturam imagens de liberdade com cenas de vigilância e controle, tendo o fim de chamar a atenção para os impactos que as câmeras criam. As imagens de vigilância sugerem a construção de um panóptico em Washington DC. Como se pode ver, o Observing Surveillance tem como principal método comunicar idéias através de imagens, promovendo a observação dos próprios vigias, o que explica o nome do grupo.
O projeto recebe incentivo do programa Cultura, Mídia e Educação da Fundação Ford.


Constant VZM Map of Brussels surveillance cameras (Bruxelas, Bélgica)
Esse grupo existe desde 1997 e desenvolve um projeto de mapeamento das câmeras de vigilância da cidade de Bruxelas, através de fotos que enquadram não só as câmeras, mas também o contexto no qual estão inseridas. No site, elas são organizadas por regiões e ao clicarmos em cada foto podemos vê-la em maiores detalhes junto ao endereço de onde a câmera se situa. Muitas dessas fotografias datam de dezembro de 2000, sendo que outras foram acrescentadas em janeiro de 2001.
O ponto de partida dessa pesquisa foi a “Opéra Royal de La Monnaie”. Na sua lateral há uma escultura da qual desce um tubo de plástico com um cabo que alimenta uma câmera de vigilância. A partir desse ponto, o grupo “Constant VZM” começou sua caminhada em busca das câmeras e após uma hora foram registradas um pouco menos de cem.
O site do grupo apresenta um texto que busca refletir sobre a proliferação da vídeo-vigilância e suas implicações na atualidade. Ao final, conclui-se que a presença massiva de câmeras é um sintoma de uma sociedade cujo imperativo é mais o controle do que a solidariedade. Além disso, questiona-se o fato de assuntos éticos serem solucionados pela tecnologia em detrimento do debate democrático. Propõe-se então que organismos como os comitês, associações e universidades subvertam a situação vigente, propondo caminhos alternativos.


CCTV Berlin (Berlim, Alemanha)
Esse grupo tira fotos das câmeras de vigilância de Berlim e as organizando por regiões. O grupo fez um mapa de uma das principais praças da cidade, a Potsdamer Platz. A economia dessa descrição justifica-se pela impossibilidade de compreender o site, integralmente escrito em alemão ;-)

NYC Surveillance Camera Project (Nova Iorque, EUA)
Este projeto começou com grupos de voluntários do New York Civil Liberties Union (NYCLU)* procurando todas as câmeras públicas ou privadas que filmam as pessoas nos espaços públicos. Em uma coletiva de imprensa realizada pelo grupo em 13 de dezembro de 1998, foi divulgado o projeto que mapeava as câmeras de vigilância em espaços públicos de Manhattan (NYC Surveillance Camera Project). A causa defendida pelo NYCLU visa a liberdade e o direito de anonimato dos nova-iorquinos nesses espaços vigiados. Através de seu discurso contra vigilância, visam conscientizar a população sobre a proliferação das câmeras de vigilância e a sua conseqüente invasão de privacidade.
Esse grupo mapeou todas as câmeras de Manhattan, tanto públicas quanto privadas, que filmam as pessoas no espaço público. A partir disso, os voluntários do grupo produziram um mapa com as 2397 câmeras de Manhattan. Nesse mapa consta o número, a localização e os tipos de câmeras usadas. Além disso, o NYC Surveillance Camera Project reivindica a regulamentação do uso das câmeras de vigilância.
O mapa de Nova Iorque elaborado por este grupo é dividido em “Community districts”, nos quais indica-se o número de câmeras e os tipos (“stationary”, “rotational”, “globe”). Ao lado do mapa há uma legenda maior com as seguintes indicações: “private cameras”, public câmeras”, “Community district boarders”, “places of interest”e “parks”.
*O grupo existe desde 1951 por ativistas que defendiam a liberdade e os direitos civis em Nova Iorque.

Surveillance camera players (Nova Iorque, EUA)
O grupo Surveillance Camera Players originou-se na cidade de Nova Iorque, em novembro de 1996. O grupo realiza performances contra-vigilância e exibem cartazes diante das câmeras com frases como: “YOU ARE WATCHING ME”, “ALL DAY...EVERYWHERE I GO”, “WHO AM I?
WHAT´S MY NAME”, “I WANT GOD TO SEE ME”. Além disso, o gripo realizou um mapeamento das câmeras de vigilância de Nova Iorque e de outras cidades, enfatizando sempre no seu website que a apresentação dos mapas tem fins unicamente educacionais e informacionais.
Para disponibilizar o mapeamento no site, em cada link apresenta-se um mapa referente a uma determinada região de Nova Iorque, no qual são discriminados os tipos de câmeras, como: “elevated camera”, “TV câmera”, “city-owned camera”, “webcam”, “privately owned camera”, etc. Além disso, há informações sobre datas distintas, o que nos possibilita observar o crescimento do número de câmeras de vigilância ao longo do tempo. O primeiro mapa realizado pelo grupo foi, aparentemente, em maio de 2000 no Times Square, Manhattan.



Institute for Applied Autonomy (i-See) (Nova Iorque, EUA)
O “ Institute for Applied Autonomy” foi criado em 1998 como uma organização para pesquisa em desenvolvimento tecnológico dedicada à “autodeterminação” individual e coletiva. A organização tem como missão estudar as forças e estruturas que afetam a autodeterminação, fornecendo tecnologias que ampliam a autonomia de ativistas. Ao mapear as câmeras de CCTV no meio urbano, o i-See demarca rotas nas quais as pessoas não estariam sob a vigilância das câmeras, proporcionando linhas de fuga para os transeuntes na cidade. O mapa de Manhattan (Nova Iorque) elaborado por esse grupo foi feito junto com o “Surveillance Camera Players”, o “Surveillance Camera Project” e o “Eyebeam Atelier Workshop”. No mapa, retrata-se, ainda, o crescimento da vigilância nos espaços públicos entre 1998 e 2002.


quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Mapas futuros


As relações entre vigilância, cartografia, tecnologia e futuro são analisadas à luz de ótimos exemplos e dispositivos em Future Map or: how the cyborgs learned to stop worrying and love surveillance, texto de Brian Holmes disponível no seu Continental Drift.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Cartografias informacionais

A crescente massa de dados que as redes e sistemas informacionais vem produzindo é certamente uma das vias privilegiadas de "registro" e "inscrição" do que nosso tempo e nossa cultura vem fabricando em diversos domínios - social, político, estético, afetivo etc. Um dos problemas enfrentados por aqueles que pretendem tomar essa rica e volumosa massa de dados como "objeto" de apreciação, pesquisa, experimentação ou simples interesse é a dificuldade em visualizá-la de forma minimamente ordenada e diferenciada. Respondendo a isso, inúmeros esforços cartográficos vem se dando nesse domínio, contruindo cartografias informacionais, mapas de nossa cultura infoormacional. Cito alguns exemplos interessantes, retirados do ótimo sítio para os amantes de mapas e sistemas de visualização de dados - o information aesthetics.


" a collection of data visualization methods that reveal the specific characteristics of communications between Usenet newsgroups members. the visual analysis focuses on distinguishing "signatures of role", such as identifying so-called "answer people", individuals whose dominant behavior is to respond to questions posed by other users.
for instance, the "authorlines" visualization represents the volume of contributions for a single author across a year. each vertical strip represents one week. each circle represents a thread in which the actor participated during this week. red circles represent threads initiated by the selected author, while blue circles indicate threads initiated by someone else that were replied to by the selected author. the diameter of a circle represents the number of messages posted by author to that thread during that week."

" a new interactive search visualization tool that enables users to compare the search results from web, image, video, blog, tagging, news engines or RSS feeds sources. a "crystal" consists of the overlapping results from different search engines (e.g. Google, Yahoo, MSN, Ask, Wisenut, ...). the "categorization" view represents the overlap by different icons whose shapes & colors encode all the different combinations possible. the "cluster" view display overlap by circular distance from the center. the "spiral" view places all the found items along an expanding spiral.
as a unique feature, people can embed searchCrystal as a fully interactive widget on websites or blogs to share personalized crystals."


" a collection of data visualizations illustrating the monthly lists of the 100 most visited Wikipedia pages between September 2006 & January 2007. it is shown that almost 40 percent of a month’s top 100 pages are visited in all 5 months, whereas 25 percent are highly visited only in a single month.
in "category view", circular icons with colored sectors indicate which specific lists contain the same page, & their size indicates how many pages are contained in a specific combination of lists. in "cluster view", star–shaped icons at the periphery act like “magnets” that pull a page icon toward them based on the page’s list positions. in "spiral view", all pages are placed sequentially along an expanding spiral."


"an interesting research project which explores how one can make use of the real-time biological information of the human body. several wearers record their Galvanic Skin Response (GSR) (a simple indicator of emotional arousal) in conjunction with their geographical location. this is used to plot a map that highlights points of high & low arousal, & visualizes where people feel stressed or excited.
the Greenwich Emotion Map project attempts to invent new visualization strategies to represent this data in the context of neighborhoods & communities.
see also bio-responsive server & coca-cola world chill map & gps drawing."

domingo, 29 de abril de 2007

WWW 2007

Acontece no início deste mês de maio a WWW2007 (16th International World Wide Web Conference) em Alberta, Canada. Os papers apresentados estão disponíveis e seleciono abaixo alguns sobre mineração de dados (data mining) e cartografias diversas da WWW. Os papers são bastante técnicos, mas úteis.
Para uma análise dos procedimentos cartográficos e taxonômicos no ciberespaço e uma reflexão sobre o monitoramento das ações dos usuários no ciberespaço e a elaboração de bancos de dados, perfis computacionais, previsão de comportamentos e produção de identidades, ver meus artigos: