terça-feira, 1 de abril de 2008

Sentence first - verdict afterwards!


A polícia britânica argumenta em favor do mapeamento e registro em bancos de dados genéticos do DNA de crianças cujo comportamento indiquem que elas podem se tornar criminosas no futuro. Nas palavras terrificantes do diretor de ciências forenses da Scotland Yard:
"If we have a primary means of identifying people before they offend, then in the long-term the benefits of targeting younger people are extremely large".
Desde 2004 a polícia britânica pode recolher amostras de DNA de qualquer indivíduo que seja detido e que tenha mais de 10 anos (!). O banco de dados genético do UK é o maior da Europa e estima-se haver cerca de 1.5 milhão de amostras de DNA de pessoas entre 10 e 18 anos.

Essa forma de vigilância e condenação preventiva também é reivindicada no campo terapêutico: um relatório recente do Institute for Public Policy Research clama por terapia cognitivo-comportamental e programas de apoio a famílias com crianças entre 5 e 12 anos classificadas no perfil de criminosas potenciais. O relatório, intitulado "Make me a criminal", defende que a prevenção deve começar cedo:
"You can carry out a risk factor analysis where you look at the characteristics of an individual child aged five to seven and identify risk factors that make it more likely that they would becomean offender". A matéria é do The Guardian.

No Brasil, uma pesquisa sobre "cérebros criminosos" foi anunciada por neurocientistas do Rio Grande do Sul, que pretendem mapear e estudar o cérebro de 50 voluntários jovens da antiga Febem de Porto Alegre. Diversas instituições e entidades já manifestaram nota de repúdio à pesquisa, inclusive o Conselho Federal de Psicologia. No dia 30 desse mês de abril, o Núcleo de Pesquisa em Cognição e Coletivos/NUCC da UFRJ, do qual faço parte, realizará um debate sobre essa pesquisa e esse tema. Farei a chamada aqui em tempo.

"Let the jury consider their verdict," the King said, for about the twentieth time that day...
"No, no!" said the Queen. "Sentence first -- verdict afterwards."
"Stuff and nonsense!" said Alice loudly. "The idea of having the sentence first!"
"Hold your tongue!" said the Queen, turning purple.
"I won't!" said Alice.
"Off with her head!" the Queen shouted at the top of her voice. Nobody moved.
"Who cares for you?' said Alice, (she had grown to her full size by this time.) "You're nothing but a pack of cards!"
(Alice's Adventures in Wonderland, Lewis Carroll)

segunda-feira, 31 de março de 2008

Indústria da vídeo-vigilância


Pesquisa da ABI mostra a expansão do mercado da vídeo-vigilância no mundo. Estima-se que a indústria que girou 13,5 bilhões em 2006 chegará à soma de 46 bilhões em 2013. A pesquisa aponta, ainda , a progressiva passagem do analógico ao digital nos sistemas de vídeo-vigilância.

A vigilância está lá fora: Big Brother Brasil


Na semana passada, enquanto assistia o depoimento da ex-BBB Fani Pacheco no evento Painel de Controle: vídeo e vigilância social, realizado recentemente no CCBB-Rio, me questionava sobre como poderia dialogar com essa fala que vinha de um lugar tão distinto do meu e dos demais participantes do evento, todos pesquisadores ou artistas. Tentava, primeiramente, um lugar de escuta que não fosse simplesmente o de uma pesquisadora ávida por dados empíricos encaixados em suas hipóteses; tentava manter uma escuta aberta o suficiente para que algo pudesse deslocar o meu próprio 'saber' sobre o BBB e seus participantes. Nessa tentativa, cheguei a um meio-caminho: nem grandes confirmações, nem grandes deslocamentos. Três elementos me chamaram a atenção nesse depoimento:
1. Era um depoimento e não havia outro lugar de fala suposto que não o da primeira pessoa. O termo "a minha vida pública" era usado com frequência, mas o seu único sentido era o da exposição midiática.
2. Revelador e significativo saber que o maior controle experimentado pelos internos no BBB não se dá pelas câmeras, mas sim pela voz do diretor do programa, que muitas vezes se dirige aos participantes de forma vociferante e em tom de ameaça. O controle da temperatura da casa também é minuciosamente manipulado, de modo a incitar maior exposição dos jogadores, especialmente quando estão debaixo do edredom. Desconhecia essa face oculta do BBB.
3. Quanto à vídeo-vigilância, Fani disse que embora as câmeras sejam onipresentes, a experiência dentro da casa não é opressiva, sendo a vídeo-vigilância quase esquecida. No entanto, "aqui fora", disse, "me sinto muito mais vigiada" pela mídia, fãs e paparazzi. No debate, eu disse a ela que o seu depoimento me lembrou o slogan da extinta série Arquivo X: "a verdade está lá fora". E que o slogan do BBB bem poderia ser "a vigilância está lá fora" ;-)

sábado, 29 de março de 2008

YouTube, monitoramento e marketing


Uma nova ferramenta no YouTube permite que os acessos aos vídeos sejam monitorados por seus criadores, que poderão saber onde e quando eles foram assistidos. O programa, chamado YouTube Insight, foi anunciado como mais um instrumento de marketing para que seus utlilizadores e anunciantes monitorem sua popularidade. Mais um exemplo de naturalização do monitoramento como prática cotidiana e estendida a "todos". Trata-se também de mais uma aplicação do "It's not surveillance, it's marketing!"; como se esses dois mecanismos pudessem ser claramente diferenciados hoje.
Mais detalhes no The New York Times.

terça-feira, 25 de março de 2008

Good Morning Paranoia


Começa amanhã em Paris a exposição Good Morning Paranoia, cujo título é uma clara referência ao trabalho de Nam June Paik, Good Morning Mr. Orwell. Da exposição participam Manu Luksch (Faceless), Cécile Hartman (Player), entre outros. A dica veio da Paola Barreto (merci!).

sexta-feira, 21 de março de 2008

Diagnósticos visuais e microfísica do poder (2)

Continuando o post anterior e recuando no tempo. Dois extratos que retratam a hermenêutica do olhar, a ortopedia fisionômica e a antropometria da alma presentes nos diagnósticos visuais que a fotografia e o fotógrafo eram supostos fornecer. A alma desviante de criminosos e loucos capturada pela câmera fotográfica, nas palavras e métodos de Bertillon (no campo da criminologia) e Diamond (na psiquiatria).

"Every measurement slowly reveals the workings of the criminal. Careful observation and patience will reveal the truth." Alphonse Bertillon


"...o Fotógrafo capta com uma exatidão infalível os fenômenos exteriores de cada paixão, enquanto indicação realmente segura de um desarranjo interior, e apresenta ao olho a bem conhecida afinidade que existe entre o cérebro doente e os órgãos e as feições do corpo...o Fotógrafo capta num momento a nuvem permanente, a tempestade passageira ou o brilho da alma, e habilita o metafísico a testemunhar e esboçar a conexão entre o visível e o invisível num ramo importante de suas pesquisas sobre a Filosofia da mente humana" (H. W. Diamond, psiquiatra, trabalho sobre "a aplicação peculiar da fotografia no delineamento da insanidade", 1856)

Diagnósticos visuais e microfísica do poder (1)

O último post tratava das novas formas de identificação e reconhecimento de indivíduos no campo da vídeo-vigilância, tradicionalmente marcado e definido por uma visão sem olhar, um puro mecanismo de captura e registro de imagens sem narrativa ou intencionalidade. A incorporação de programas de visão artificial e reconhecimento visual às câmeras confere um outro papel social, político, ético e estético, aproximando-as dos dispositivos biométricos e antropométricos de controle social. São muitas as questões presentes aí, e uma delas concerne ao tipo de identificação e de controle sobre a ação e os corpos humanos implicado nesses novos formatos de diagnóstico visual de indivíduos criminosos ou perigosos. Numa primeira visada, esses dispositivos parecem estar em consonância com as novas formas de controle social, que visam diretamente a ação - e não o sujeito, sua personalidade, sua interioridade - como foco de intervenção. Não se quer, como quis a fotografia criminal e psiquiátrica, diagnosticar a alma desviante sob os traços fisionômicos tornados provas e sintomas na imagem capturada pela câmera. Não importa quem são os ladrões de bicicleta, sua condição social ou psíquica. Importa impedir furtos de bicicleta (e crimes de diversas ordens), e o modelo de eficiência não passa mais nem pelos sujeitos nem pela sociedade, mas sim por um mecanismo de reconhecimento de um padrão (visual, nesse caso), que faz soar um alarme que por sua vez impede a ação delinquente.

Conhecemos o poder e a violência dos diagnósticos visuais modernos e todo o seu interesse pelas almas perigosas e pela causalidade social do crime. Soubemos também contrapor a esse modelo, outras subjetividades e outros regimes sociais. A superficialidade do atual modelo de diagnóstico visual o faz parecer cordial e inofensivo. Mas sabemos que essa mesma aparência revela a atual face do controle - resta pensar nos enfrentamentos possíveis dessa eficácia a tal ponto asséptica e pragmática que busca não implicar nem sujeitos nem sociedades.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Vídeo-vigilância, bicicletas e malas


Os sistemas de vídeo-vigilância se tornam cada vez mais específicos e incorporam em suas funções mecanismos de reconhecimento e identificação. A pesquisadora Dima Damen, da Universidade de Leeds, desenvolveu um programa de visão artificial para evitar roubo de bicicletas. O programa captura e registra as imagens de cada um que estaciona sua bicicleta, de modo que estas sejam recuperadas no momento em que as bicicletas estejam sendo retiradas e automaticamente comparadas com as imagens geradas em tempo real. Se o programa detectar disparidade entre a imagem atual e a imagem armazenada, um alarme é acionado.

A mesma pesquisadora tem o projeto de desenvolver sistemas para detecção de bagagens abandonadas em aeroportos e estações.
"Lots of research had lately been concerned with detecting abandoned baggage within the FoV of CCTV camera. Yet, it is highly improbable that people would intentionally leave baggage unattended in areas covered by CCTV cameras. It makes more sense to leave baggage in hidden areas or blind areas not covered by cameras. Such areas can obviously be found despite the intensive positioning of CCTV cameras in transport stations and other public areas. In these cases, we are unable to detect abandoned baggage. Nevertheless, we can depend on linking the events of people entering a hidden or blind area and exiting it later. Via linking these events we could identify people who enter the hidden area carrying a baggage and leave without it. This is a good-enough signal to trigger a warning signifying an abandoned baggage".

Esses sistemas de registro, identificação e reconhecimento visual de indivíduos tem fortes implicações ético-políticas. Ainda é presente a memória dos usos totalitários desses arquivos, mas as apropriações atuais dessas técnicas operam por movimentos diferenciados de controle, ao mesmo tempo mais sinuosos e mais acépticos. Retomo esse ponto num próximo post.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Evento sobre vídeo e vigilância no CCBB-Rio


Michael Klier, «Der Riese», 1983
© Michael Klier


Participo na próxima semana do evento Painel de Controle:Vídeo e Vigilância Social, que acontece no Centro Cultural Banco do Brasil do rio de Janeiro, entre 25 e 27 de março de 2008. Segue abaixo a programação do evento.

CCBB IDÉIAS
Painel de Controle: Vídeo e Vigilância Social
Auditório – 4º andar
25 a 27 de março – 19h

Englobando os programas de reality show, a proliferação de máquinas digitais em celulares e outros aparelhos eletrônicos e o controle exercido pelo Big Brother do personagem do livro "1984", clássico de George Orwell, os debates serão precedidos de projeção de vídeos e filmes sobre o tema, revelando olhares distintos sobre a questão. O evento dá um zoom nos fenômenos do voyeurismo e da vigilância através das lentes que se espalham por toda parte.

Curadoria: Amanda Bonan e Luiza Baldan

25.03.2008 | 19 – 21 h

PARTE 1 > 19 – 19:30 h

Projeção de filmes:
• Getting Evidence, 1906 (Dir. Edwin S. Porter, EUA)
• Trechos do filme 1984 (Dir. Michael Radford, EUA)

PARTE 2 > 19:30 – 21 h
Bentham, Foucault, Orwell, Virilio: bases para analisar o fenômeno da vigilância.

Mediação: Ana Lúcia Enne
Palestrantes: Ieda Tucherman / Tulio Vianna / Ivana Bentes


26.03.2008 | 19 - 21 h

PARTE 1 > 19 – 19:30 h

Projeção de filmes:
• Trechos do filme Cachê (Dir. Michael Hanecke, França)

PARTE 2 > 19:30 – 21 h
A vida pós vídeo-vigilância.

Mediação: Bernardo Jablonski
Palestrantes: Fernanda Bruno / Arturo Rodríguez Bornaetxea / Thomas Levin (por videoconferência)

27.03.2008 | 19 - 21 h

PARTE 1 > 19 – 19:30 h

Projeção de filmes:
• Trechos do filme Der Riese (O Gigante), (Dir. Michael Klier, República Tcheca)
• Trechos do filme Sorria, Você Está Sendo Filmado (Dir. Chico Caprário, Brasil)

PARTE 2 > 19:30 – 21 h
A apropriação dos dispositivos de vigilância na produção audiovisual.

Mediação: Sérgio Branco
Palestrantes: Ricardo Basbaum (a confirmar) / Andrea França / Fani Pacheco

domingo, 16 de março de 2008

Games e voyeurismo: The Sims 3


A sociabilidade digital, nos últimos anos, vem sendo cada vez mais temperada com pitadas mais ou menos picantes de voyeurismo e vigilância em diversos ambientes virtuais. A terceira e mais recente versão do game The Sims, a ser lançada no dia 19 deste mês, traz, entre suas novidades, a possibilidade de os jogadores se movimentarem livremente de um lugar a outro sem ter que passar por uma tela de carregamento (load), encontrarem outros "sims", interagir com eles quando quiserem e... espiá-los pela janela ou mesmo filmá-los. Essas novidades investem em três processos correntes na cibercultura: mobilidade, sociabilidade e voyeurismo.

A outra ponta das pulsões escópicas contemporâneas - a da vigilância - também se faz presente nos games, sobretudo pela via artística e estética. O projeto SimVeillance mistura videovigilância e o game The Sims 2:
"By repurposing surveillance footage of a real-world place very close to where the viewer will be experiencing the work, SIMVeillance also asks the viewer to consider the increasing presence of recording devices within the urban landscape, and the possibility of leaving traces that linger in unexpected ways."

No âmbito estético, os movimentos mecânicos das câmeras de vigilância encontram ressonância na arquitetura ortogonal das cidades e no sistema de coordenadas que organiza as telas dos jogos eletrônicos, promovendo um olhar mecânico ou geométrico. Alguns trabalhos de video que exploraram as relações entre jogos, cidades e vigilância: Nyc nac solo (J-C. Mocick, 1989), Chicago Flipper (Franck Scurti, 1997), conforme referências de Françoise Parfait (Video: un art contemporaine, Paris: Editions du regard, 2001).