sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Multiversos e cosmogramas (Quarta Carta de Cogitamus, Bruno Latour)

Um outro cosmos: multiversos, cosmogramas. São dessas outras "cosmologias" que trato brevemente nessa nota sobre a quarta carta do livro Cogitamus, de Bruno Latour. O ponto de partida é o belo livro de A. Koyré, Do mundo fechado ao universo infinito, o qual coincidentemente foi determinante na formação do meu entendimento da modernidade, ainda na graduação de uma psicologia fortemente afinada à epistemologia. Entendimento que, diz Latour, deve hoje ser revisto por pelo menos duas razões. Primeiro, porque essa passagem - do mundo fechado de Aristóteles e dos medievais ao universo infinito da ciência moderna de Galileu e Laplace - jamais se deu efetivamente. Ela é aquilo mesmo que caracteriza a narrativa moderna como ruptura com um passado primitivo e equivocado em direção a um futuro em posse da verdade e, no mínimo, promissor. Na sua contra-história da modernidade e da filosofia da ciência, Latour afirma que simplesmente passamos de um cosmo a outro, com a diferença de que este se acreditava um universo. Esta crença, contudo, não a temos mais. Eis a segunda razão da revisão do entendimento suposto no livro de Koyré. O século XXI não mais tem a certeza de viver num universo infinito. As discussões sobre ecologia e mudanças climáticas, por exemplo, nos advertem que temos agora que negociar não apenas entre nós, humanos, mas também com os recursos finitos da natureza. Mas não retornarmos ao cosmos aristotótico. Habitamos multiversos (retomando o termo do W. James). Ou ainda, habitamos um outro cosmos, mas este deve ter o sentido que habitualmente lhes dão os antropólogos: o agenciamento de todos os seres que uma cultura particular mantém juntos nas formas de vida prática. Apreender este outro, nosso, cosmos implica reconstituir "cosmogramas" (J. Tresch), sempre traçados seguindo as diferentes partes envolvidas nas controvérsisas que o constitui. "Descrever associações de conveniência, de coexistência, de oposição e de exclusão entre seres humanos ou nào humanos cujas condições de existência são pouco a pouco explicitadas sob a prova das disputas...Traçar cosmogramas é se tornar sensível a essas listas de associações e duelos lógicos sem recorrer à distinção do racional e do irracional, do moderno e do arcaico, do sistemático e do "bricolé".
Essa sensibilização para modos de existência diversos e para a natureza heterogênea e controversa do que entendemos por "mundo", "cosmos" ou "universo" é especialmente provocativa para quem, como eu, tem uma formação em ciências humanas e em particular em psicologia. A acolhida desta perspectiva no campo reconhecidamente híbrido da comunicação é menos controversa, creio. Mas o que julgo mais interessante nestas belas idéias e imagens de multiversos e cosmogramas, é que elas permitem não apenas uma reflexão diferenciada das ciências humanas e sociais sobre a ciência e a tecnologia, mas também conexões pouco usuais entre o cosmos assim entendido e a política. Cosmopolíticas, como se verá em post próximo.

Ps: Lamento pela pelo caráter pouco didático deste post, que merecia explicações mais detalhadas para ser plenamente compreendido. Tomem-no como pistas e traços a serem percorridos e continuados.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Escola

Um das boas experiências deste período em Paris é poder acompanhar, através do meu filho de 07 anos, o cotidiano do que sempre foi meu ideal de escola: pública, laica e universal. Mas, assim como em todo o mundo, a escola também aqui amarga uma crise que já vem de longa data. Escapam-me, por falta de conhecimento, as muitas razões e os diversos estratos dessa crise. Aqui falo apenas de uma experência muito particular e desde um olhar talvez demasiadamente estrangeiro.
Um dos elementos desta tão falada crise da escola francesa é a sua dificuldade em lidar com a diversidade cultural, linguística e comportamental que hoje "perturba" o seu "programa" ao um só tempo pedagógico e civilizatório. Uma das melhores leituras desse processo é o filme "Entre os muros da escola", de Laurent Cantet. Uma escola que não cabe mais em seus muros disciplinares, os quais não delimitam como antes um "interior" progressivamente homogêneo em que todos devem seguir de modo relativamente uniforme a "marcha natural do espírito".
Uma das "saídas" para lidar com a diversidade de culturas hoje presente na escola francesa consiste em medidas que buscam "personalizar" ou "diferenciar" a escola segundo grupos de competências e necessidades específicas. Algumas escolas elementares oferecem, por exemplo, classes especiais para estrangeiros, as quais visam dar uma atenção especial a crianças qua não falam o francês. Assim que cheguei, ouvi diversas vezes essas propostas em tom elogioso, como se elas representassem um cuidado em atender às diferentes demandas dos estrangeiros. Vi com certa simpatia tais medidas, num primeiro momento, mas logo percebi a cilada que a "personalização" trazia consigo. O que parece ser uma afirmação e uma acolhida da diversidade mantém uma fronteira perigosa com a segregação. As classes especiais seriam uma forma de acolher a diversidade de culturas e línguas no seio da escola ou uma forma de "poupar" as crianças francesas e/ou francófonas do convívio ("perturbador") com esta diversidade? A fronteira é tênue e coloca em risco não apenas a dimensão republicana da escola quanto o seus objetivos pedagógicos. Essas medidas, que se alinham com o que tecnicamente se chama de "colégio diferenciado" e que se afina com as propostas dos "colégios de reinserção escolar" para os "adolescentes-problema" não apenas ampliam a segregação como implicam em resultados escolares desfavoráveis. Contra essa corrente, a afirmação e fortalecimento do chamado "colégio único", instaurado na França a partir de 1975, mais igualitário e com resultados escolares mais favoráveis, conforme pesquisa divulgada pela OCDE no bom artigo de Nathalie Mons no Le Monde. Contra a cilada da personalização, que diferencia sem implementar de fato uma política das diferenças, o colégio único se mostra bem mais interessante na tarefa de educar segundo perspectivas e contextos simultaneamente igualitários e heterogêneos.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Cartografia das controvérsias: notas (2)

O público fantasma é uma legião de "públicos" a reinventar.
Na segunda ou terceira aula do curso, Latour relança a já bastante conhecida provocação da falência ou a inexistência do Público. Em suas palavras: "o Público é um fantasma". A frase retoma Walter Lippman e seu livro O público fantasma (Le public fantôme), cuja mais recente edição francesa é apresentada por Latour. A provocação de retomar as idéias de um pensador liberal e um enunciado tão propalado pelas "direitas" pretende recolocar e mesmo fortalecer a questão da possibilidade da democracia segundo uma perspectiva que é a um só tempo pragmática, sociotécnica, controversa. Afirmar o caráter fantasmático do Público não é nem um ato de descrença na democracia, nem uma negação da ação pública tout court; ao contrário, é um ato de fé na democracia, a qual depende, para os autores (Lippman e Latour), do reconhecimento de que o Público não é a solução das questões democráticas, mas sim um de seus problemas (ver também Dewey, J. The public and its problems). Logo, não se deve partir da existência do público como uma realidade de fato, mas sim como um problema a ser enfrentado. Pois o Público com P maíusculo é um fantasma, uma invenção das teorias idealistas da democracia, assim como as diversas formas de "Todo" que lhes são associadas - a "vontade geral", o "espírito público", até mesmo "a sociedade". Sobre estes fantasmas que se armaram os ideais fracassados da democracia, os quais foram lidos também como fracasso do Público (apatia, falta de vontade política, esmaecimento das lutas coletivas, escasso engajamento e cuidado com a "coisa" pública etc). Se houve fracasso, é porque não existe tal Público, mas muitos e diversos "públicos", e estes não estão aí prontos, mas precisam ser constituídos, potencializados, capacitados. 
Para tanto, eis a dimensão sociotécnica e pragmática, é preciso criar tecnologias, aparatos cognitivos que capacitem e constituam tais públicos. Os públicos, no sentido específico e pragmático são uma questão de medium. Se a imprensa pôde ser uma dessas tecnologias, cabe recolocar a questão - que tecnologia podemos inventar para a democracia hoje?
Como tal perspectiva se articula ao projeto de cartografia das controvérsias? Primeiro, pela idéia de que são nos momentos de crise, de incerteza, de controvérsias que o público é (ou deve ser) constituído e chamado a participar no debate, apreender os problemas que estão em jogo e tomar decisões. Ou seja, a possibilidade de ação do público e da democracia está atrelada a um mundo entendido como controverso, múltiplo, incerto. Segundo, a incerteza e a complexidade do mundo e de questões públicas e políticas só podem ser matéria de discussão e deliberação pública se os cidadãos, "naturalmente" desprovidos de recursos cognitivos, forem capacitados e aparelhados para tanto. Cartografar controvérsias é um passo em direção a esta construção de tecnologias voltadas para a potencialização do debate público e político, de tecnologias para a democracia. Tais tecnologias não são representativas de uma "vontade geral", mas instrumentos do "fazer comum" (faire ensemble). Por meio do "mapa" de uma controvérsia, os cidadãos podem visualizar posições, ações e consequências de ações sobre uma matéria específica e, por sua vez, agir "publicamente" e politicamente.
Ao longo da aula, pensei nos inúmeros dispositivos que têm sido criados ou apropriados na web (twitter , plataformas de compartilhamentos diversas, cartografias e sitemas de visualização de dados e processos socio-culturais e políticos, certas redes sociais) e que de alguma forma podem ser lidos como tendo um parentesco com essas tecnologias de ação pública ou de públicos específicos e momentâneos. Uma pista interessante para pensar a ação pública e política nesses contextos, e também a passagem (que venho explorando em diversos níveis) do privado ao público, do indivíduo ao coletivo, do eu ao nós. A advertência de que, assim como o eu, o nós não existe e está por vir, é, embora aparentemente óbvia, decisiva.
Ainda sobre a web, como apontei no último post sobre este mesmo curso, ela é uma importante aliada do projeto de cartografia das controvérsias, tanto porque é um "reservatório" de ferramentas potenciais para cartografar controvérsias, quanto porque é um potente "suporte" para a disponibilização das cartografias (veja alguns exemplos neste site).

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

No princípio, a ação (Terceira carta de Cogitamus, Bruno Latour)

"Au début, c'était l'action" (No princípio, era a ação). Eis o ponto de partida para o entendimento das técnicas e tecnologias. No início, a ação; depois a técnica. E quando estas se tornam transparentes, invisíveis e naturalizadas, cabe retraçar o curso de ação que as constituem. No caso das ciências, o antigo dito de João - "no princípio, era o verbo" - é retomado, mas num sentido todo próprio. Melhor seria dizer "discurso", "enunciado", em torno do que Latour propõe um novo exercício aos seus "alunos". Partir de um enunciado "flutuante", capturado um pouco ao acaso e em qualquer parte -  televisão, jornal, livro, blog - e tentar recondzi-lo às suas condições de produção. O exercício visa "ancorar" o enunciado ao mundo onde ele se produz, mundo de interlocuções humanas, mas também mundo de agentes não humanos, dos quais tratam muitas vezes os enunciados científicos sem lhes dar o devido crédito. Além disso, o exercício visa mostrar o quanto e como a ciência é construída por controvérsias.
Latour introduz mais uma  noção central - a de "controvérsia" - que vem, ao lado de "tradução" e "prova", formar a tríade conceitual do seu curso. Habitamos um mundo controverso e a ciência é ela mesma controversa. Cartografar as controvérsias é uma das tarefas do programa de humanidades científicas, permitindo visualisar e apreender uma série de movimentos e estados intermediários entre a dúvida radical e a certeza indiscutível. No lugar de uma ciência das extremidades, onde se encontram enunciados certos e estáveis, uma ciência de estados intermediários cuja cartografia permite mostrar que um enunciado científico, certo e estável, é a etapa final de uma série de controvérsias e não seu começo. E todo interesse desta cartografia consiste em compreender e perseguir os movimentos (controversos) através dos quais certos enunciados se tornam estáveis e certos, e outros não.
Latour retoma à sua maneira o embate (já empreendido de outros modos por diferentes autores, como Nietzsche, Foucault e outros) contra as tradicionais divisões segundo as quais a ciência e a razão ocidental se conceberam: entre enunciados falsos e verdadeiros a diferença não é de natureza, mas de grau (para retomar aqui a usada fórmula bergsoniana). "As diferenças de natureza entre os enunciados 'falsos' e os enunciados 'verdadeiros', os rumores e as descobertas, os argumentos discutíveis e os fatos indiscutíveis correspondem a etapas sucessivas na série de transformações que um enunciado deve sofrer para esgueirar-se entre os 'prós' e os 'contra'". Vemos logo ressoar outro antigo embate entre a retórica e a demostração, o qual Latour propõe retomar não segundo a lógica da oposição, mas segundo dois ramos da eloquência, por meio dos quais (e através de uma série de engenhosidades, astúcias e montagens) uma evidência ou um enunciado indiscutível se produz, na saída de uma cadeia de elementos nada evidentes e de uma série de discussões e controvérsias. Retraçar essa série e essa cadeia ruidosa porém usualmente deixada na invisibilidade ou no silêncio de caixas pretas  é compreender a elaboração progressiva de provas e a busca tateante pela verdade, em vez de supor um conflito entre as forças do verdadeiro e as forças das paixões e dos preconceitos.
Um tal (outro) amor pelas ciências retoma seus vínculos com a política. Entre o cogito - eu penso - e o cogitamus* - nós pensamos - é preciso escolher.
*O termo "cogitamus", que dá título ao livro, não é apenas uma espécie de contra-referência a Descartes, mas também uma alusão à noção de "Denkkollectiv" (coletivo de pensamento) formulada por Ludwik Fleck (Genèse et développement d'un fait scientifique, 1935), considerado o inventor da sociologia das ciências.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Perspectiva em movimento (Segunda carta de Cogitamus, Bruno Latour)

As notas desta segunda carta não seguirão o ritmo relativamente didático das anteriores. Limito-me a poucos apontamentos fragmentados de algumas passagens, todas relativas ao que chamo aqui grosseiramente de perspectiva em movimento.
No lugar do objeto, séries de ações, desvios, associações, traduções, composições, substituições. No lugar da unidade e da entidade bem delimitada, o múltiplo. O controverso no lugar do unificado e o mediatizado no lugar do "imediato". Esses deslocamentos, recorrentes no "programa" de Latour, propõem uma mudança de perspectiva em relação, sobretudo, aos "objetos" das ciências e das técnicas.  Tomar tais objetos segundo uma perspectiva sociotécnica, como sugere Latour, é de algum modo colocá-los em movimento, ou melhor, retraçar ou seguir o movimento que os constituem malgrado a sua aparente estabilidade. Essa imagem do movimento aparece muitas vezes nesta segunda carta de Cogitamus (la Découverte, 2010). Extratos:
"Un peu comme si chaque objet technique devenait la page d'un flipbook dont vous apprendriez à faire défiler très vite les pages pour sisir le seul mouvement" (p. 53)
"...saisir les techniques comme un projet et non pas comme un objet. Ou plutôt l'objet existe bien mais à la façon d'une coupe à un instant t. L'objet, c'est un arrêt sur une image du film du projet."(p. 55)
Claro que esse movimento não é linear nem uniforme, mas cheio de ziguezagues, contraposições, "encaixotamentos". E, igualmente importante, este movimento também é tempo. Latour chega mesmo a propor um gráfico que resumiria uma "tendência" ou um movimento de conjunto da nossa história sociotécnica - dos babuínos ao homem contemporâneo. São três seus "princípios". Primeiro, acumulação, conservação e recomposição de todas as compotências advindas ao longo da história, de modo que nenhuma inovação chega a abolir as precedentes. Segundo, um "alongamento" dos desvios implicados nas competências e objetos. Um computador, por exemplo, envolve um número muito maior de desvios e traduções (componentes materiais, empresas, acordos comerciais, licensas etc) do que uma flecha. Terceiro, a extensão crescente de seres de naturezas diversas mobilizados em nossas ações sempre compostas - mobilizamos cada vez mais o mundo, a matéria, os seres de toda sorte em nossos objetos. Não, a técnica não nos afasta do mundo e das coisas elas mesmas, ao contrário, estamos cada vez mais misturados à intimidade da matéria - partículas, moléculas, átomos. História de homens e de coisas, história socieotécnica. Daí o slogan: "Materializar é socializar; socializar é materializar" (p. 65). Tomar pé da história assim entendida é, sobretudo hoje, uma ação política. 

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Cogitamus, por Bruno Latour

Cogitamus: six lettres sur les humanités scientifiques é o mais recente livro de Bruno Latour. Trata-se de um livro epistolar: seis cartas resumem um curso de Humanités Scientifiques (Sciences Po) para uma estudante alemã, que não pôde acompanhar as aulas, mas que o provoca com uma inquietação a respeito dos embates envolvidos na Convenção sobre mudanças climáticas em Copenhague.
Comecei a leitura ontem e ao que consta em sua contra-capa, o livro pretende ser uma introdução, para um público mais amplo, ao estranho domínio das "humanidades científicas" (Humanités Scientifiques). Não traz, assim, maiores novidades em relação a livros anteriores, mas reapresenta, agora num contexto de formação, conceitos e idéias já formulados. O que os faz operar de modo mais claro e ágil, além de aproximarem o leitor das pistas, obstáculos e decisões metodológicas da pesquisa que o autor realiza e ensina. Nesse sentido, os conceitos e idéias aparecem neste livro numa outra "escala ótica", não usual, mais próxima do que seria o cotidiano do pensamento, da pesquisa e do ensino. O que afinal faz todo sentido, considerando a "matéria" do livro.
Deixo aqui as minhas notas sobre a primeira carta:

Como definir um curso, e este curso em particular, que trata de algo tão pouco disciplinar como "humanidades científicas", um domínio que nem existe de fato? Por negação, primeiro, o curso não trata de ciências e tecnologias simplesmente, mas sim de suas relações com a história, a cultura, a literatura, a economia, a política. Seu objetivo é colocar em questão a idéia de autonomia das ciências e das técnicas (aqui reencontramos o conhecido programa da sociologia das ciências) e o foco que interessa neste questionamento é precisamente aquele que bascula as fronteiras das ciências e tecnologias com a política. Para mostrar as associações entre esses domínios, Latour retoma o discurso de Plutarco sobre o papel de Arquimedes no cerco dos romanos a Siracusa, já comentado em outros textos seus. A bela análise do autor/professor mostra como, malgrado a denegação do próprio Plutarco (que, após ter mostrado o quanto se cruzam os interesses e ações de Arquimedes e do rei, acaba por manter o primeiro como um cientista puro e desinteressado das questões mundanas), um encadeamento de traduções, desvios e composições mistura o mundo da geometria de Arquimedes e o mundo da geopolítica o rei de Siracusa, a quem o primeiro oferece uma "solução" técnica (o sistema de roldanas, que por sua vez traduzia uma expressão geométrica) para um problema político (o assalto dos poderosos e numerosos romanos a Siracusa). "Dêem-me um ponto fixo que erguerei o mundo". Inversão das relações forças: entre um velho sábio e um exército; entre um império e uma pequena cidade. E também "passagem", trânsito, composição entre o mundo da ciência e o mundo político, entre a geometria e a geopolítica: domínios antes estranhos um ao outro tornam-se comensuráves (ainda que o discurso científico e político convencionais voltem a torná-los aparentemente incomensuráveis, como faz Plutarco).
Tradução, desvio e composicão: eis os três conceitos centrais do curso-livro. Conceitos que operarão a substituição da metáfora do corte entre as ciências e a política (e o resto da existência) pela metáfora dos liames sucessivos entre eles. Traduzir é transportar transformando: transcrever, transpor, deslocar. Daí a importância do desvio, pois toda tradução implica um desvio, a instauração de uma ambigüidade na ação, idéia, conceito, interesse do 'outro'. Deste modo, toda ação, criação, ciência é composta de uma série de desvios em que práticas, interesses, conhecimentos de diversos campos (científico, político, econômico etc) se afetam reciprocamente. A proposta do curso, tratar das humanidades científicas, é seguir esses cursos de ação, as traduções e desvios nele implicados, e suas composições, pois "l'action est toujours composée et la somme de cette composition est toujours ambiguë". E ainda, retomando o caso de Arquimedes: "Voyez pourquoi je parle de composition: au final, l'action est tissée par ces enchaînements et ressemble à un feuilleté de préoccupations, de pratiques, de langues différentes - celles de la guerre, de la géométrie, de la philosophie, de la politique." As ciências e tecnologias, longe de serem um domínio autônomo, são mais ou menos interessantes conforme a sua aptidão a se ligar a outros cursos de ação. Interessante aqui reconduz a uma outra noção cara a Latour: a noção de interesse ou mais precisamente de "intéressement". A aptidão a se ligar a outros cursos de ação consiste na aptidão a interessar, lembrando que a origem latina da palavra interesse designa aquilo que se coloca entre duas coisas "inter-esse". Seguir os cursos sinuosos dos encadeamentos de traduções, interesses, desvios e composições é o que se propõe no estudo das "humanidades científicas". Estudo que deve ter em mente que no fim de cada trajetória jamais encontrará "a ciência", "a sociedade" ou "a política" como domínios de fronteiras nítidas e histórias particulares, mas, antes, redes de ações coletivas.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

European Boundaries of Humanity

Na semana passada, o CERI sediou o Colóquio European Boundaries of Humanity 1 e 2, organizado por Didier Bigo. Apresentações interessantes e instigantes sobre segurança, território, comunidade, política, vigilância, mobilidade, antecipação, predição. Segue abaixo um resumo da programação e os links para a versão completa:
Une coopération CERI-Sciences Po, Leverhulme Trust et Birkbeck College
Mercredi 27 octobre 2010
Session 1 (17h00-19h00): European Boundaries of Humanity: Drawing Lines in Borderland?
Jeudi 28 octobre 2010
Session 2 (9h00-12h00) : The Undesirables
Session 3 (13h30-16h00) : The World as Us: Beyond Diplomacy
Session 4 (16h30-19h00) : Critical Geographies of Humanity
Un projet FP7-INEX / LISS COST / EU-Canada
Vendredi 29 octobre 2010
Session 1 (9h00-12h30): Technologies, Bodies and Identities: The Reframing of Human Boundaries
Session 2 (14h00-18h00): The Boundaries of Rights and Privacy?

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Doctoral workshops CERI/Sciences Po

Nesta semana, nos dias 25 e 26 de outubro, acontecem no CERI/Sciences Po workshops voltados para cursos de doutorado de quatro universidades: Sciences Po, PUC-Rio, King's College London e UVIC. O tema central do workshop é "International Political Sociology". Destaco duas mesas mais próximas do interesse da minha pesquisa: Analysing Practices of (In)Security and Surveillance, que acontece dia 26/10 às 14:00h, e "Methodologies Questioning the International", no mesmo 26/10, às 17:30. Nesta última mesa, meu especial interesse pela apresentação de Didier Bigo, que discutirá três importantes noções teórico-metodológicas: agenciamento, campo e dispositivo (no título em inglês: "Assemblage, Field and Dispositif").
O programa completo dos workshops está disponível para download.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Cartografia das Controvérsias: notas (1)


Eis as primeiras notas do curso Cartografia das Controvérsias ministrado por Bruno Latour na Sciences Po. Estas notas dão uma idéia geral do curso e do programa no qual ele se insere. Nas notas seguintes passo às minhas impressões e reflexões inspiradas pelas aulas.
O curso é ministrado para a pós-graduação em Comunicação da Sciences Po e faz parte de um projeto mais amplo, o MACOSPOL - Mapping Controversies on Science for Politics, que desenvolve pesquisas colaborativas envolvendo universidades de diferentes partes do mundo.

Cartografar Controvérsias
Um dos aspectos mais interessantes do curso reside na sua tentativa de "responder" a um problema de extrema atualidade: o da necessidade de criação de dispositivos políticos capazes de potencializar a participação democrática no contexto das novas redes e tecnologias digitais. Uma de suas questões centrais poderia ser - como agir e fazer agir politicamente hoje, utilizando as redes e tecnologias digitais? Diante de uma reconfiguração significativa nos modos produção e circulação de informações (especialmente visível na Internet em sua versão 2.0), é preciso criar dispositivos que potencializem, tanto no âmbito cognitivo, quanto social e político, a participação nos debates e decisões da vida pública. Na ausência da fonte de autoridade que garantia a verdade ou confiabilidade da informação, são as controvérsias mesmas que precisam ser cartografadas. Cartografar controvérsias é portanto uma abordagem ao mesmo tempo teórica, metodológica e política que se inscreve no programa da ANT (Actor Network Theory) e que encontra um terreno fértil nas redes e tecnologias digitais de comunicação distribuída. Conforme aponta Latour no vídeo de introdução à Cartografia das Controvérsias, o oceano de informações que se produz hoje é tanto o "problema" a ser enfrentado quanto o campo mesmo de sua "solução". As mesmas ferramentas de produção e circulação das controvérsias podem ser apropriadas para cartografá-las. Os alunos do curso devem, assim, utilizar as próprias ferramentas da web para produzir suas cartografias. Neste sentido, a cartografia é também um dispositivo de visualização das controvérsias que permite não só a compreensão de um campo de problemas, mas também a participação política nas questões científicas e tecnológicas.

Visualizar controvérsias
Uma das maiores dificuldades que encontramos hoje na pesquisa de processos que envolvam a web, é desenvolver uma metodologia capaz de dar conta da imensidão e da fluidez dos dados que aí circulam. Cartografar controvérsias constitui, ao meu ver, um potente exercício metodológico para a pesquisa de processos na web. Na proposta do Latour, o foco incide sobre controvérsias no campo das ciências e tecnologias (e há todo um sentido nesta escolha, sobre a qual falo num próxmo post), mas a metodologia pode ser extremamente fértil em outros domínios. No curso da Sciences Po, a etapa de elaboração e disponibilização das cartografias na web é coordenada pelo pesquisador Tommaso Venturini. Vejam neste site as cartografias realizadas pelos alunos dos cursos ligados ao projeto MACOSPOL. Sugiro também este tutorial para a elaboração de cartografias de controvérsias.

Este projeto é extremamente inspirador para pesquisadores na área de comunicação. Recomendo vivamente um percurso pelos links indicados acima.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Blogagem Coletiva de repúdio ao AI5 Digital


Aderindo à blogagem coletiva de repúdio aos projetos de vigilantismo (vulgo AI5 Digital) que ameaçam a liberdade na Internet brasileira. Vejam mas informações no blog do Mega Não! Estou na França, onde vigora uma lei - a Hadopi - que criminaliza o compartilhamento de arquivos e obras culturais na Internet, quando este viola direito autoral. Embora todos que conheço aqui digam que a lei é inexequível e que sua função é fundamentalmente retórica, o seu princípio é inaceitável. Para evitar que leis semelhantes controlem a Internet brasileira, é fundamental o repúdio ao AI5 Digital! E para quem ainda não assinou, veja a petição on-line em defesa da liberdade na Internet brasileira.