quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

#Dronehackademy



Os drones talvez sejam a máquina mais sintomática do nosso tempo, por ora. Máquina modelo da atual guerra ao terror, em que o ângulo de visão e de tiro coincidem na linha de mira de um pós-humanismo brutal. Matar sem poder morrer: violência cuja assimetria e unilateralidade extremas redefinem, conforme G. Chamayou (Teoria do Drone) a concepção da guerra. Do combate ao assassinato seletivo (e à distância). Para além da guerra, e ironicamente, essa máquina assume recentemente mil e uma utilidades e alimenta uma indústria que cresce vertiginosamente.
Como lidar com essa máquina e seus ardis? A #dronehackademy, projeto coordenado por Pablo de Soto e Lot Amoros no MediaLab.UFRJ, com apoio da Rede LAVITS, enfrenta a questão.
Documentação da primeira edição da #dronehackademy aqui.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

A Vida Secreta dos Objetos 2015





















Em agosto de 2015 A Vida Secreta dos Objetos esteve de volta ao Rio de Janeiro, dando continuidade ao evento inaugurado em 2012. Este ano, o instigante Simpósio dedicou-se ao subtema “Ecologias da Mídia” e aconteceu em São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza. Um prazer e uma honra participar mais uma vez desse belo encontro.
A programação e os registros da edição carioca estão no site do Simpósio.
Abaixo, o resumo da minha conferência “Contramanual para tecnologias smart: algoritmo, controle, tempo":
Uma parte significativa da paisagem de dados por onde trafegamos é modulada por algoritmos que alimentam-se de nossas ações, alegam ‘aprender’ com elas e nos ofertam uma paisagem personalizada que projeta o que supostamente desejamos ver, consumir, ouvir, ler, conhecer preferencialmente. Tais algoritmos, nutridos por imensos volumes de dados variados e dinâmicos, animam a vida secreta das tecnologias, ambientes, plataformas e serviços ditos inteligentes. Tão “smart” quanto opacos.
Como ver, apreender, narrar essas máquinas que nos fazem visíveis e que no entanto escapam à nossa percepção e ação? Como negociar com elas, como contestá-las, contrariá-las e eventualmente sabotá-las? Encaminharemos nesta conferência interrogações sobre as políticas de visibilidade, a escala e a agência do controle algorítmico, que incide especialmente sobre o tempo, sobre como ver adiante e agir antes.

LAVITS 2015: Simpósio, Videos, Anais

























A LAVITS - Rede latino-americana de estudos em vigilância, tecnologia e sociedade, criada em 2009 por um grupo de pesquisadores inquietos com a penetração crescente de práticas e tecnologias de vigilância em nosso cotidiano, realizou em maio de 2015 o seu terceiro Simpósio Internacional no Rio de Janeiro. Simpósio fértil em ideias, diálogos, intercessões e trocas, abrigados sob a temática geral "Vigilância, Tecnopolíticas, Territórios. Ao longo de três dias reunimo-nos em torno de conferências, seminários temáticos, oficinas, intervenção audiovisual e um seminário aberto que fechou o evento.
A programação completa pode ser conferida no site do III Simpósio LAVITS, bem como os Anais com os trabalhos apresentados nos seminários temáticos. Os videos das conferências podem ser vistos aqui.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Nem indivíduo, nem sociedade: o transindividual











O Medialab/UFRJ, o LEIC/UFRJ e o GeACT convidam a todxs para o debate ‘Nem indivíduo, nem sociedade: o transindividual’ com Pedro Ferreira (UNICAMP):

A apresentação irá explorar aspectos da teoria social desenvolvida por Gilbert Simondon em L’Individuation à la lumère des notions de forme et d’information. Em especial, será abordada a noção simondoniana de “transindividual”, fundamental para sua concepção de individuação coletiva. Serão indicadas algumas possíveis contribuições dessa teoria social para pesquisas em ciências sociais.

Pedro P. Ferreira é professor do Depto. de Sociologia do IFCH/Unicamp e desenvolve pesquisas na área de sócio-antropologia da ciência e da tecnologia (entendidas como práticas de conhecimento ou saberes práticos). Já desenvolveu pesquisas teóricas e empíricas sobre xamanismo, música eletrônica de pista, skate, fotografia, morfogênese urbana e práticas teórico-laboratoriais em física, experimentando mais recentemente com uma perspectiva filosófica menor da Teoria Ator-Rede. Atualmente desenvolve uma leitura sociológica da filosofia da individuação de Gilbert Simondon.
 
=== DATA/LOCAL ====
Sexta-feira, dia 11 de setembro, às 14h30
IFCS – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais
SALA 109, Térreo
==== REALIZAÇÃO ====
MediaLab.UFRJ
http://medialabufrj.net/
LEIC (Laboratório de Etnografias e Interfaces do Conhecimento) – IFCS/UFRJ
GeACT – Grupo de Estudos em Antropologia da Ciência e da Tecnologia
https://geactblog.wordpress.com/
=== REFERÊNCIAS ===
A individuação à luz das noções de forma e de informação: Introdução. (Trad. Pedro Ferreira e Francisco Caminati)
https://cteme.files.wordpress.com/2011/05/simondon_1958_intro-lindividuation.pdf
Video de Pedro Ferreira https://www.youtube.com/watch?v=Z_RQ4jCJ3EI

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Olho_Máquina_Mundo


No segundo semestre de 2015 ofereço no PPGCOM/UFRJ, em parceria com Tadeu Capistrano (PPGAV/UFRJ), o curso Olho_Máquina_Mundo: explorações estético-políticas a partir do trabalho de Harun Farocki. O curso é uma parceria destes programas de pós-graduação da UFRJ com a Plataforma de Emergência/Deslocamentos do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica/CMAHO. O curso é aberto não apenas a mestrandos, doutorandos, mas também a artistas, pesquisadores e profissionais interessados. As inscrições podem ser feitas no PPGCOM/UFRJ, no PPGAV/UFRJ ou no CMAHO (goo.gl/forms/bDQlUDpwen)
O curso será oferecido às quintas-feiras, das 15 às 18h, no auditório do Centro Municipal de Arte Helio Oiticica.

Abaixo a ementa e a bibliografia básica:
O curso toma o trabalho de Harun Farocki como ponto de partida para explorar as conexões entre olho, máquina e mundo em três campos: a produção científico_tecnológica de máquinas de visão, as estratégias de controle sobre espaços, territórios e populações, e as práticas artísticas que têm questionado as recentes dinâmicas de poder. Estes três campos, analisados conjuntamente, formam a base para uma reflexão estético-política sobre as trajetórias moderna e contemporânea de produção das imagens, dos nossos modos de ver e de fabricar mundos. Tal reflexão será conduzida, ao longo do curso, pela análise de trabalhos artísticos de Farocki, em diálogo com obras de outros artistas, e textos de arte, filosofia, psicologia, arquitetura e mídia.
Bibliografia Básica:
ARANDA, Julieta; VIDOKLE, Anton; WOOD, Brian K. e-Flux # 59 – Harun Farocki. New York, 2014.
CRARY, Jonathan. 24/7. Capitalismo tardio e os fins do sono. São Paulo: Cosac Naif, 2014.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Remontage du temps subi (L’oeil de L’histoire 2). Paris, Minuit: 2010.
EHMANN, Antje. Harun Farocki: Against What? Against Whom? Walther König: Köln, 2010.
FAROCKI, Harun. Desconfiar de las imágenes. Buenos Aires: Caja Negra, 2013.
FLUSSER, Villém. O universo das imagens técnicas. São Paulo: Annablume, 2008.
STEYREL, Hito. Los condenados de la pantalla. Buenos Aires, Cajá Negra: 2014.
VALIAHO, Pasi. Biopolitical Screens: Image, Power and the Neoliberal Brain. Massachusetts: The MIT Press, 2014.
VIRILIO, Paul. A máquina de visão. Rio de Janeiro: José Olympio, 1994.
WEIZMAN, Eyal. The Politics of Verticality. The West Bank as an Architectural Construction. Open Democracy, 2002.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Estéticas da Vigilância: arte, tecnologia e política

 

                             Trevor Paglen, Untitled (Reaper Drone), 2010.

Amanhã, na Universidade de Buenos Aires (Faculdade de Ciências Sociais), retomo numa conferência um tema que persigo há alguns anos: Estéticas da Vigilância: arte, tecnologia e política. Coordenadas aqui.

RESUMO:
Que estéticas da vigilância podem emergir quando o objeto do olhar vigilante se torna simultaneamente gigantesco e vestigial? Uma parte expressiva das tecnologias de vigilância hoje alimentam-se dos rastros de nossas ações no espaço informacional ou dos rastros de nossos corpos deixados nas câmeras, sensores, radares e aparatos similares de captura de nossa imagem ou de nossa presença. Esses rastros e vestígios são capturados em imensas escalas, gerando arquivos de grandezas inéditas, da ordem de zetabytes de dados. Como ler, ver, analisar e controlar esse volume de rastros, os quais ultrapassam as capacidades humanas de apreensão sensorial e cognitiva? Como vigiar um “hiper-objeto”? Que agenciamentos homem-socius-máquina são aí produzidos?

Este primeiro conjunto de questões será explorado na leitura de práticas artísticas contemporâneas que tornam ao mesmo tempo sensíveis e perturbadores tais processos em curso nos atuais dispositivos de vigilância. Desdobra-se, daí, um segundo conjunto de questões vinculado a dois tipos de táticas de (in)visibilidade: aquelas que inventam formas de apagamento, desaparição ou trucagem dos rastros para escapar dos aparatos de vigilância, e aquelas que buscam tornar visíveis e legíveis os mecanismos, cada vez mais discretos, que nos monitoram e rastreiam cotidianamente. Privilegiaremos as táticas de (in)visibilidade engendradas por trabalhos artísticos recentes que tematizam ou se apropriam de drones e de diversos tipos de algoritmo presentes nos chamados dispositivos de ‘vigilância inteligente’ (smart surveillance).

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Contra-atacar a vigilância em massa: #TheDayWeFightBack


Milhares de websites de diversas partes do mundo protestam juntos hoje, dia 11 de fevereiro, contra a vigilância em massa. Participe do #TheDayWeFightBack ! Mais informações no site em português e no site da campanha internacional. Internet sem vigilância, urgente!

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Máquinas de ver, modos de ser: vigilância, tecnologia e subjetividade



O livro Máquinas de ver, modos de ser: vigilância, tecnologia e subjetividade (Sulina, 2013) está disponível em PDF para download por período limitado: até o fim de fevereiro. O livro incorpora alguns posts deste blog, que acompanhou parte da pesquisa que ainda prossegue aqui e em outros escritos. Boa leitura!

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Quem tem medo de Paranoia?

http://issuu.com/editora3/docs/select_13_desgustacao_2?e=1818451/4279538

Um prazer colaborar com este ótimo número 13 da Revista seLecT, dedicado à paranoia. O pequeno texto fala da vigilância como modo patológico de defesa e partiu da pergunta, colocada pela revista: Afinal, a paranoia é trava ou estímulo para a criação?
O texto pode ser lido clicando na imagem abaixo. Todo o número está disponível online. Recomendo também o ótimo texto da Giselle Beiguelman e da Paula Alzugaray.

http://issuu.com/editora3/docs/select_13_desgustacao_2/41?e=1818451/4279538


domingo, 1 de setembro de 2013

Cartografia de Controvérsias, com Tommaso Venturini: conferência e oficina no MediaLab.UFRJ


Entre os dias 26 e 30 de agosto, o pesquisador Tommaso Venturini (médialab, Sciences Po, Paris) coordenou uma oficina sobre Cartografia de Controvérsias no MediaLab.UFRJ. Ao longo da oficina, Venturini apresentou as bases teóricas, as ferramentas e os princípios metodológicos da Cartografia de Controvérsias, em boa parte inspirados na Teoria Ator-Rede.
Participaram da oficina pesquisadores e alunos de diversas universidades (UFRJ, UFES, PUC PR  e PUC RJ) que, reunidos em grupos, testaram alguns dos princípios e ferramentas da Cartografia de Controférsias com os seguintes temas:  Marco Civil da Internet brasileira; Vandalismo nos protestos políticos recentes no Brasil;  Violência Policial; Mídia Ninja e CPI dos Ônibus no Rio de Janeiro.
O evento, que contou também com uma conferência de Tommaso Venturini no dia 23 de agosto de 2013, foi organizado pelo MediaLab.UFRJ, Labic/UFES e CiberCult/UFRJ, com apoio do CNPq, Capes e Faperj.
No site do MediaLab.UFRJ, estão disponíveis os slides da oficina e o video da conferência.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Dados de eleitores brasileiros nas mãos da Serasa?

Uma parceria infeliz entre o Tribunal Superior Eleitoral e a Serasa previa o repasse de dados de eleitores para esta empresa, violando seriamente a salvaguarda de dados pessoais dos brasileiros. Felizmente, o convênio anunciado foi anulado e despertou algumas reações da sociedade civil. Abaixo, trecho da nota crítica ao convênio, publicada pela LAVITS - Rede latino-americada de estudos sobre vigilância, tecnologia e sociedade.

Lavits critica convênio TSE-Serasa e pede mais rigor no trato de dados pessoais
O grupo Lavits (Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade), que reúne pesquisadores e ativistas interessados na questão do uso de dados pessoais e privacidade, recebeu com surpresa e assombro a notícia de que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) firmou convênio para entrega de dados pessoais de eleitores brasileiros ao Serasa. Embora informações mais recentes dêem conta de que nenhum dado foi ainda compartilhado com a instituição de crédito, a assinatura do convênio demonstra quebra de uma relação de confiança estabelecida com o TSE. Não somente o tribunal eleitoral mas todo o Estado brasileiro precisa estabeler padrões adequados e discutir com a sociedade políticas de salvaguarda dos dados pessoais dos cidadãos....http://www.labjor.unicamp.br/vigilancia/?p=665&lang=pt

domingo, 23 de junho de 2013

Big Brother e Big Data: Snowden, NSA e vigilância para as massas

Pelas mãos de Edward Snowden, chega aos nossos olhos e ouvidos o que talvez seja o maior vazamento envolvendo aparatos estatais de vigilância sobre governos e populações.  Publiquei ontem no Prosa & Verso (O Globo) um artigo sobre o tema, reproduzido abaixo e também disponível no site do caderno.
Prosa & Verso, O Globo, 22.06.2013
Capacidade das empresas da internet de acumular informações sobre os usuários alimenta uma discussão que vai da segurança nacional a economia de dados

Por Fernanda Bruno

A imagem é familiar: na mira de aparatos de vigilância onipresentes, indivíduos têm cada uma de suas ações rastreadas e monitoradas por serviços secretos americanos. Perdemos a conta das vezes em que vimos tal cenário distópico nos filmes de Hollywood. A ficção nos habituou a uma imagem da vigilância estatal que a realidade vem, contudo, superar. Os recentes documentos divulgados pelo jornal britânico “The Guardian” mencionam um programa de vigilância da Agência Nacional de Segurança (NSA) dos Estados Unidos que, diferentemente da maior parte da ficção hollywoodiana, não se volta para alvos suspeitos ou culpados, mas para uma massa difusa de indivíduos e seus dados pessoais na Internet. Segundo os documentos, o programa PRISM permite que a NSA tenha acesso direto a servidores de grandes empresas da internet, sendo assim capaz de monitorar comportamentos de seus usuários em escala global. As empresas citadas — Microsoft, Yahoo, Google, Facebook, PalTalk, AOL, Skype, YouTube, Apple — fazem parte do cotidiano de bilhões de internautas e possuem dados extremamente sensíveis sobre seus hábitos, desejos e preferências em diversas esferas: pessoal, política, religiosa, econômica etc. Curiosamente, as redes digitais de comunicação distribuída, ditas pós-massivas, se tornam o território privilegiado da vigilância de massa.

Ainda que as declarações das instâncias envolvidas busquem minimizar o potencial de violação de direitos civis em jogo, o problema está posto. De fato, ele é apenas a face mais recente de uma série de ações e programas há muito em curso. Por parte do governo americano, desde os atentados de 11 de setembro de 2001, uma série de programas e leis vêm criando zonas de exceção que autorizam o monitoramento de dados e comunicações da população civil, sob a justificativa do combate ao terrorismo (Patrioct Act, 2001 e 2006; Waranteless Domestic Surveillance Program, 2001; Total Information Awareness Program, 2002; Foreign Intelligence Surveillance Court, 2007). Uma das peculiaridades do PRISM, ativo desde 2007, seria a sua aliança com as corporações privadas na internet, implicando uma mudança não só quantitativa, mas também qualitativa no acesso aos dados pessoais de internautas, uma vez que, segundo os documentos, a NSA teria acesso não simplesmente aos metadados das navegações (horário e local de conexão, por exemplo), mas também aos seus conteúdos (histórico de buscas, conteúdo de emails, transferência de arquivos etc).

Embora esta aliança seja até o momento negada em uníssono pelas empresas mencionadas, os documentos colocam em pauta uma lógica da vigilância cada vez mais comum ao Estado e ao setor privado. Um aspecto desta lógica está relacionado às promessas do chamado “Big Data”. O termo designa uma nova grandeza informacional que procede tanto do aumento da capacidade de estocagem como da emergência de um novo tipo de saber que tais volumes de dados gerariam. A suposição é a de que quantidades massivas de dados, submetidas a procedimentos algorítmicos apropriados, revelariam regras inscritas em suas correlações, permitindo projetar padrões de comportamento e intervir no curso das ações de inúmeros indivíduos, de modo a conjurá-las, quando indesejadas, ou incitá-las, se forem bem-vindas. Trata-se de um modelo polivalente. Pode-se extrair, por exemplo, padrões de intenções de voto, de consumo ou de atentados terroristas, contanto que se trabalhe com imensas e heterogêneas bases de dados. Se estes dados forem fornecidos pelos próprios indivíduos, como é o caso de boa parte da internet, tanto melhor. A sedução do modelo que já faz a fortuna das empresas citadas no documento consiste em seus poderes pretensamente preditivos. O monitoramento em massa de ações no presente, juntamente com a análise das correlações entre elas, permitiria estimar probabilidades de ocorrência de ações futuras.

Este modelo, já conhecido para nos ofertar produtos, links e serviços, é apropriado pelo aparato de vigilância estatal indiscriminada sobre internautas, sem que estes tenham conhecimento. No primeiro caso, trocamos informações sobre nossos modos de vida pelo uso de plataformas e serviços na internet. Sabemos que eles nos transformam em produtos de seus negócios, e ao mesmo tempo acreditamos que podem ser apropriados em outras direções sociais, políticas e econômicas. No segundo caso, as questões relativas à privacidade e aos dados pessoais mudam de escala e gravidade. No âmbito local, é urgente a votação de leis brasileiras que assegurem nossos direitos civis na internet, bem como a proteção de dados pessoais (o Marco Civil da Internet e a Lei de Proteção de Dados Pessoais). Em escala global, o fantasma do “Big Brother” se transmuta nas promessas do “Big Data”, criando uma agenda que atravessa tanto a segurança nacional quanto a economia de dados; tanto a publicidade direcionada quanto o combate ao terrorismo. Agenda que prescreve tacitamente, sob alegados e incertos poderes de prevenir males futuros, um presente de vigilância para todos.

Fernanda Bruno é professora do Instituto de Psicologia e do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura da UFRJ

quarta-feira, 27 de março de 2013

Contramanual para câmeras inteligentes

Em tempos de tecnologias "inteligentes" - smartphones, smart cars, smart drones, smart cameras, é preciso escrever contramanuais.
Minha modesta contribuição com um "Contramanual para câmeras inteligentes: vigilância, tecnologia e percepção" (Galaxia, n. 24).

"...o programa de uma tecnologia não coincide com o diagrama ao qual ela pertence ... de modo que a análise do primeiro deve tornar visível elementos que compõem o segundo. É neste sentido que o texto deve servir como um contramanual, no qual se lê a um só tempo as funcionalidades do programa e as relações de força presentes no diagrama: suas declaradas qualidades e seus perigos; sua lógica de funcionamento e os conflitos que a atravessam; sua alegada eficácia e suas falhas; suas ações e as táticas ou críticas que se lhe opõem." (Fernanda Bruno, p. 49)

domingo, 18 de novembro de 2012

Harun Farocki e a Política das Imagens





















Convidamos a todos para o evento Harun Farocki e a Política das Imagens.


Diálogos, olhares, reflexões e experiências em torno da obra de Harun Farocki e seus temas: imagem, olhar, máquinas, guerra, trabalho, revolução, política, vida, controle, consumo, entre outros.

O evento compreende duas conferências de Harun Farocki, uma mostra de seus filmes, acompanhada de um curso com especialistas em sua obra, e uma oficina em parceria com a artista Antje Ehmann.

Este evento é mais uma realização do Museu de Arte do Rio, através de seu programa “MAR na Academia”, em parceria com a UFRJ (EBA/PPGAV, MediaLab.UFRJ, ECO-PÓS), a UFF (Departamento de Cinema e Vídeo, Laboratório Kumã), o Instituto Goethe, a Cinemateca do MAM/RJ, o Centro de Artes Hélio Oiticica e a Escola de Cinema Darcy Ribeiro.

Organização: Fernanda Bruno (MediaLab.UFRJ) e Tadeu Capistrano (PPGAV/UFRJ).

Programação completa no site do evento. Acompanhe também a página no Facebook.

http://harunfarockieapoliticadasimagens.wordpress.com/

MediaLab.UFRJ













Um laboratório experimental de pesquisa talvez seja a primeira e melhor definição do MediaLab.UFRJ. Certamente, é uma definição relativamente imprecisa, como o termo "experimental" quer dizer neste caso. Não a prática laboratorial consagrada pela ciência moderna, também chamada 'experimental', mas o laboratório que se torna possível a partir dos limites deste modelo de conhecimento e da rachadura das fronteiras que o constituíam. Um laboratório como lugar de experimentação de mídias, dispositivos e métodos para a produção de conhecimento. Produção que não pode estar separada da sua divulgação, compartilhamento e distribuição. Com esta perspectiva, estamos elaborando duas plataformas iniciais: Cartografia de Controvérsias e Livro Livre. Nossos 'campos' de investigação são o heterogêneo território das humanidades e das redes sociotécnicas. Visite o blog do MediaLab.UFRJ para acompanhar as pesquisas em curso.

sábado, 13 de outubro de 2012

Aula Inaugural no Instituto de Psicologia/UFRJ

Revendo e coletando imagens do Hospício Nacional dos Alienados para a aula inaugural que darei esta semana no Instituto de Psicologia da UFRJ. É fascinante o aspecto espectral dos loucos nessas imagens. Tenho a sensação de que não terei habitado esse lugar onde estudo, leciono e vivo desde 1987 enquanto não for capaz de escrever sobre essas imagens, sobre o assombro e fascínio que elas me causam, sobre as vidas infames que elas encerram e que parecem ainda querer fugir delas.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade e







A Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade foi criada em 2009 com o objetivo de fomentar intercâmbios e divulgação de pesquisas na América Latina sobre os temas que dão título à rede. Está on-line o site da rede, onde há infomações sobre publicações, projetos, eventos,  pesquisadores etc. Participações e parcerias são bem vindas!

Simpósio Internacional A Vida Secreta dos Objetos: Medialidades, Materialidades, Temporalidades










Os objetos tem uma vida secreta, clandestina, desprezada por boa parte das ciências humanas e sociais, com louváveis exceções que felizmente vêm se ampliando nos últimos 30 anos. O Simpósio “A Vida Secreta dos Objetos: Medialidades, Materialidades, Temporalidades” coloca em discussão a clandestinidade dos objetos no âmbito dos estudos em "humanidades" e acontece de 01 a 03 de agosto no MAM do Rio de Janeiro, com edições em São Paulo (30-31 de julho), Salvador (6 de agosto) e Fortaleza (7 e 8 de agosto). Veja abaixo a lista dos participantes no Rio de Janeiro e detalhes da programação no site do evento.




sábado, 12 de maio de 2012

Uniformes inteligentes: vigilância e educação

Recentemente, a prefeitura de Vitória da Conquista, Bahia, anunciou que os uniformes escolares da rede municipal seriam monitorados por etiquetas de rádio-frequência, de modo a notificar automaticamente os  pais dos alunos no caso de ausência. Conform a matéria no site da prefeitura: "As escolas municipais de Vitória da Conquista são as primeiras do Brasil a adotar o fardamento que facilita a comunicação entre as unidades de ensino e as famílias". A revista ComCiência do Labjor/Unicamp me entrevistou numa matéria sobre o tema. Reproduzo a entrevista na íntegra.
1. ComCiência: Qual a sua opinião sobre este fato?
Fernanda Bruno: O fato merece discussão. Na realidade, o uso de etiquetas RFID em uniformes escolares vem ampliar a presença crescente de tecnologias de vigilância e controle nas escolas. Projetos de lei requerem câmeras de vigilância em creches e escolas públicas. No setor privado, há creches que oferecem, entre suas “qualidades e serviços”, o uso de vídeo-vigilância com transmissão direta aos pais. Fora do Brasil, no Reino Unido por exemplo, já há experiências-piloto com uso de rfid em uniformes escolares.
Todos sabemos que a escola tradicionalmente utiliza uma série de técnicas e procedimentos para controlar seja o comportamento, seja a presença, seja o tempo, seja o desempenho dos alunos: inspetores, cadernetas, avaliações, campainhas, filas, exercícios. Estes procedimentos já estiveram inseridos num projeto disciplinar que orientou boa parte da pedagogia escolar durante anos. A escola vem passando por uma série de reformas e crises em todo o mundo e uma questão que eu endereçaria às instituições escolares é acerca do projeto educacional que sustenta tais medidas. Esta questão me parece importante porque, ao menos no material publicitário e jornalístico sobre o tema, tais dispositivos são em geral tratados como instrumentos neutros sem qualquer efeito além daqueles previstos pelas “boas intenções” de seus mestres. Assim, além de não se problematizar o vínculo histórico desses dispositivos com mecanismos policiais e/ou militares, não se pergunta sobre o sentido da presença desse gênero de dispositivo na escola. No caso da segurança pública por exemplo, ainda que o uso de câmeras de vigilância também seja questionável, temos alguma idéia acerca do projeto (no caso, de segurança) no qual eles estão inseridos. Mas qual é o projeto pedagógico que justifica inserir tais dispositivos na escola? A pergunta é tão mais relevante quando se pretende com isso “resolver” questões relativas ao comportamento, à presença, à relação da escola com os pais, entre outras. Por exemplo, qual é o sentido educacional e pedagógico de se utilizar câmeras de vigilância como instrumento disciplinar, visando coibir atos de vandalismo ou violência na escola? Por que a escola vê neste dispositivo um método mais interessante – do ponto de vista educacional – do que outros meios tradicionalmente usados? Essas questões indicam a necessidade de haver uma reflexão no plano educacional, pedagógico e não apenas num suposto – e inexistente – plano puramente técnico. É preciso sempre lembrar que esses planos – técnico e educacional – não estão jamais separados e devem ser pensados em suas interseções.
2. ComCiência: Quais os problemas de se tentar controlar a evasão escolar ou "facilitar a comunicação" entre escolas e pais colocando um código de barras nos uniformes dos alunos?
Fernanda Bruno: Considerando a questão específica dos chamados “uniformes inteligentes” com indentificação por radiofrequência (RFID), há também uma série de problemas em jogo. Vou me concentrar em apenas um deles, destacado nas matérias que li sobre o tema e retomado na sua pergunta. Um dos argumentos centrais de justificativa deste sistema é o de que as etiquetas RFID no uniforme possibilitariam, além de um controle mais efetivo da frequência dos alunos, uma melhor comunicação entre a escola e os pais que, segundo o site da prefeitura de Vitória da Conquista, poderão acompanhar melhor o dia a dia dos filhos na escola. O chip envia automaticamente uma mensagem ao pai informando que o aluno entrou na escola ou não, caso o aluno não passe pelo sensor até 20 minutos após o horário de entrada.
Uma primeira questão, mais evidente, é se este sistema de controle é de fato o melhor meio, em termos educacionais, de garantir a frequencia dos alunos na escola. Tenho sérias dúvidas quanto a isso e me parece que outras medidas, anunciadas no mesmo site da prefeitura – como transporte escolar gratuito e universalizado, merenda escolar bem cuidada, bom plano de carreira para os professores – sejam mais interessantes em diversos sentidos.
Mas o ponto que gostaria de discutir é outro, o da facilitação da comunicação, ou “interação” entre a família e a unidade escolar, para retomar os termos usados pelo site da prefeitura. Parece-me bastante problemático estender aos pais, em tempo real e de forma automatizada, a função de controlar a entrada e permanência dos alunos na escola. Certamente, a escola deve se comunicar com os pais seja em caso de falta, seja no caso de qualquer outro problema relativo ao aluno. Mas o “filtro” da escola, como instituição responsável pela educação escolar, é fundamental. Ou seja, uma coisa é os pais receberem da escola um comunicado que é fruto de uma “leitura” ou uma perspectiva desta instituição acerca de uma ausência, um problema de rendimento, de comportamento, ou qualquer outra questão. Quero dizer que a mediação da escola nessa comunicação é fundamental. Todos sabemos que há muitas maneiras de se “matar aula”, algumas mais e outras menos preocupantes. Cabe à escola avaliar quando e porque deve comunicar algo aos pais e não delegar ao “uniforme inteligente” essa tarefa, que por sua vez, requer dos pais uma vigilância própria a inspetores escolares. Quando o uniforme informa automaticamente e em tempo real a ausência do aluno, quem está fazendo essa mediação é o RFID, requerendo que os pais ajam, em alguma medida, como inspetores escolares, o que é muito problemático. Além disso, a margem de negociação entre os alunos e a escola, margem fundamental para o processo educacional, diminui drasticamente. Comparemos com a caderneta, outro instrumento de controle da frequencia escolar, do comportamento, do  desempenho; e também meio de comunicação com os pais. Mas mesmo na disciplinar caderneta, já em desuso em diversas escolas devido à forte e problemática mistura de comunicação e controle nela implicada, ainda há tanto uma margem para a negociação entre o aluno e a escola (quantos de nós, educados em sistemas similares, não negociou com professores ou funcionários notificações na caderneta?), quanto a mediação da escola – o professor, o diretor, o funcionário – na comunicação com os pais. O uniforme inteligente dispensa essas duas vias de negociação e de mediação tão importantes. Algo similar se passa com as escolas infantis que colocam câmeras para que os pais possam acompanhar o dia a dia dos seus filhos e se assegurar de que eles estão sendo bem tratados pelos professores e funcionários. O discurso que busca legitimar essa prática vai desde a feliz oferta de “tudo ver” e “não perder nem um segundo da vida do seu filho” até a aterrorizante garantia de que o seu filho não está sedo maltratado na escola. Mais uma vez, é claro que a escola deve zelar pela segurança das crianças, assim como deve manter diálogo constante com os pais. Esses por sua vez, também precisam ter uma relação de confiança com a escola. Entretanto, não é por meio dessa promessa de “transparência” que essas relações serão garantidas. Confiar, inclusive, implica não ver tudo, não saber tudo, não controlar tudo. É no mínimo inquietante que pais e escolas queiram educar crianças dizendo a elas que só estarão seguras e bem cuidadas se forem todo o tempo controladas e visíveis.

Privacidade 2.0: as relações eu-outro nas redes sociais


Na próxima semana, estarei participando do I Seminário do NEIFECS: Clínica de situações contemporâneas e interdisciplinaridade na UFRJ. Farei uma conferência no dia 16/05 às 17h00 na mesa "A relação eu - outro no contemporâneo" e me pediram para explorar, neste domínio, as práticas de exposição do eu e do outro na Internet. Espero postar algumas notas sobre a minha fala adiante, mas aproveito para inserir outras notas, passadas, que surgiram de uma outra demanda em torno deste mesmo tema. No fim de 2010, a Raquel Recuero me pediu para dar uns "pitacos" sobre estas práticas de exposição na Internet, levando em conta um incidente envolvendo a divulgação por twitcam de imagens de adolescentes transando.
Recuperei a "entrevista" que fizemos por e-mail e reproduzo abaixo:

Raquel Recuero: Na cultura atual vemos uma valorização do "público": Big Brother com sexo ao vivo, participantes do BBB e VJs da MTV que são famosos em redes sociais, vídeos de sexo de celebridades ... tudo é escancarado, tudo é ao vivo e tudo é público. Ao mesmo tempo, há uma imensa preocupação para com os adolescentes que me parecem, reproduzem esses valores, nesses sites de rede social. Como vês isso?

Fernanda Bruno: A questão tem muitos caminhos de resposta, pois há inúmeros elementos envolvidos nesse fenômeno de publicização ou exposição da vida cotidiana, íntima, privada etc.
Vou começar pela constatação mais evidente, já anunciada por diversos pesquisadores deste tema: as fronteiras entre o público e o privado estão em deslocamento. Mas o que não é tão evidente é que este deslocamento não é apenas no sentido de publicizar o que antes era resguardado no âmbito privado, mas no sentido de ressignificar esses domínios e, mais importante, pensá-los segundo uma outra topologia. Que topologia seria essa? Uma topologia que não delimita dois pólos (dentro/fora, aberto/fechado, exposto/secreto etc), mas que comporta múltiplas camadas, níveis, escalas. Ou seja: cada vez mais deixamos de pensar a separação público/privado de forma estanque para pensarmos em múltiplos níveis e modos de privacidade, assim como em múltiplos níveis e modos de publicização. Neste sentido, as opções de controle da privacidade/publicidade que encontramos nas redes sociais é uma expressão desta topologia e desta experiência. Regulamos, modulamos a nossa privacidade cotidianamente e selecionamos o que e como desejamos expor (ou não expor) para públicos ou audiências diferentes. Claro que no limite isso sempre existiu (ou melhor, desde que nossa experiência vital, política, institucional e espacial passou a ser orientada segundo essa distinção público/privado), mas agora essa modulação é extremamente corriqueira e intensificada.
Essa é a primeira observação mais geral e importante para encaminhar a nossa conversa. Paralelamente e atrelada a essa mudança topológica (que é também uma transformação no modo como experimentamos nossa vida privada e pública), eu adiciono 3 elementos, para ser breve:
I) Vivemos uma sobreposição de sentidos e valorações próprios à convivência de uma cultura da celebridade e do espetáculo (mais antiga, considerando nossa herança mais recente) com a cibercultura. A cultura da celebridade e do espetáculo nos legou um alto apreço pela visibilidade midiática, que, como sabemos, atestava reconhecimento social, afetivo, financeiro etc. Mas fazia parte dessa cultura e desse valor um certo princípio de escassez que de algum modo dizia “imaginariamente” que essa visibilidade midiática era para poucos, para um seleto grupo de eleitos. A cibercultura vem bagunçar esse regime de visibilidade e introduz outras formas, dispositivos, alcances para a visibilidade, agora supostamente “para todos”, mas não da mesma forma nem com o mesmo sentido e alcance. O interessante da cibercultura é que ela acolhe diferentes  regimes de visibilidade, e nela há tanto a reprodução da visibilidade midiática tradicional e sua lógica da celebridade, quanto outras vias de visibilidade cujas ações coletivas, políticas, cognitivas, estéticas escapam dessa lógica e, muitas vezes, até se fundam no anonimato dos agentes ou atores em jogo. Mas no tipo de fenômeno que você apontou, vejo nele um “locus” onde a cultura da celebridade e a possibilidade de produção, emissão e distribuição de conteúdo pelo usuário comum se retroalimentam. Creio que muitos adolescentes usam as novas mídias segundo essa lógica, buscando uma visibilidade que ateste um pertencimento social e afetivo que mimetizam de algum modo a celebridade. E no âmbito das redes sociais e da cibercultura, parte dessa visibilidade e desse pertencimento se conquista pela exposição (maior ou menor, segundos os níveis e camadas de que falei) da privacidade e da intimidade. Ou seja, vemos aqui a exposição seletiva da intimidade como motor de sociabilidade. O que também vemos em talks shows e reality shows na mídia de massa (embora os níveis de seleção, reconhecimento e pertencimento variem). Concluindo esse ponto, um dos elementos presentes nos fenômenos de publicização que você apontou está relacionado a essa sobreposição da lógica da celebridade com a lógica da sociabilidade pautada pela publicização seletiva (modulada, editada) da intimidade.
II) Um segundo elemento concerne à expectativa de exposição pública presente nas redes sociais (e outras plataformas digitais) ou em situações/ambientes que impliquem alguma forma de registro audiovisual (o que se tornou quase que onipresente com os nossos dispositivos móveis c/ câmera e áudio acoplados). Dentro dos padrões “convencionais” de um espaço que se entende público (praça, rua), as pessoas têm uma idéia relativamente clara e muito ancorada no contexto e na situação (no aqui e agora) do grau de exposição a que estão sujeitas – e modulam suas ações tendo em vista essa exposição. A expectativa de exposição é, neste caso, relativamente coerente com os limites daquele espaço. Nas redes sociais, essa expectativa de exposição é mais difícil de se estabelecer e muitas vezes não coincide com a exposição a que de fato se está sujeito. Os tais controles de privacidade nas redes sociais são de algum modo uma tentativa de “concretizar” essa expectativa (o problema é que eles nem sempre são muito evidentes nem simples de manejar, o que faz com que muitos não os usem, como mostram certas pesquisas). O mesmo acontece no caso das festas e situações sociais com inúmeros celulares presentes. Toco neste ponto por conta do caso da transmissão via twitcam de sexo entre adolescentes que mencionou. A expectativa de exposição da intimidade de alguns dos “atores” presentes parece não ter incluído este transbordamento para as mídias sociais, o que torna o caso muito cruel e grave do ponto de vista ético. Que adolescentes tenham prazer em serem filmados e testemunhados por amigos enquanto transam não significa que eles desejem ser vistos por milhares de pessoas, por seus pais, professores, uma cidade inteira etc. Aí o problema ético é o da exposição do outro.
III) O último elemento toca neste prazer em ver e ser visto. Acho importante perceber que não há apenas um mimetismo da celebridade, mas há uma excitação e um erotismo nessa troca social apimentada por exposições moduladas da intimidade. Ver pitadas da intimidade do outro e ser visto em sua intimidade é hoje uma das “zonas erógenas”, para retomar um termo psicanalítico, da sociabilidade contemporânea. Não há nada de novo aí, mas agora  isso se tornou mais visível e cotidiano e há ainda poucas pesquisas sobre o tema no âmbito das redes sociais. Mas, importante, é preciso não confundir esse desejo e essa excitação positivamente experimentada com um desejo de ser exposto a uma publicização que não se escolheu, o que é muito grave.

Raquel retoma partes desta entrevista no texto Teens, Social Media, and Celebrity: Anatomy of an Incident publicado no DMLCentral.

A imagem deste post reproduz a do artigo citado. Image Credit: http://www.flickr.com/photos/mburpee/4030741659/