sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Arquivos de vigilância on-line


Esse post vem do meu "Alertas do Google", uma espécie de dispositivo de vigilância personalizado ao qual delego parte da tarefa de vigiar na rede notícias sobre vigilância. Hoje cedo recebi um "alerta" informando que um site recém-criado na Itália destina-se a ser um arquivo de imagens de vigilância que são catalogadas, classificadas e analisadas para fins de pesquisa diversos. Segundo a matéria da Agência ANSA, o Visor (Video Surveillance Online Repository), apelidado pela agência de "YouTube da segurança", permite que interessados colaborem inserindo ou visualizando vídeos de modo a construir um arquivo colaborativo para a comunidade científica pesquisar e testar sistemas de videovigilância. Visitei o site e como não fiz o download dos programas requeridos, não tive acesso a quase nada. Além de ver as próprias imagens, gostaria de saber como o site lida com as normas legais de divulgação de imagens capturadas por câmeras de vigilância e com as leis de proteção à privacidade. Trecho da referida matéria:
"O Video Surveillance Online Repository foi apresentado na Convenção da Associação Internacional para Reconhecimento de Formas (IAPR). "Visor faz parte do projeto europeu Vidivideo, que se dedica a novas técnicas para classificar os vídeos automaticamente, reconhecer similaridades entre os clipes e simplificar a busca por meio de pesquisas sobre dados visuais e de áudio", explica Rita Cucchiara, organizadora da convenção.
"Qualquer um pode carregar vídeos no portal, obviamente observando as regras de privacidade. Visor é um instrumento que recolhe imagens para a comunidade científica e serve para testar e confrontar os sistemas de vigilância em vídeo", acrescenta Rita.
Os vídeos apresentados em Visor são acompanhados de uma ficha com indicações de lugar, tipo de situação, câmera utilizada, horário e dia da filmagem. As fichas são escritas por meio de técnicas de anotação para algoritmos desenvolvidas pela universidade norte-americana de Maryland. (ANSA) "

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Bogard e os anéis da serpente

Artigo de William Bogard no CTheory.net (obrigada Adriana!) explora as propriedades hápticas da sociedade de controle. Bogard é autor de um bom livro sobre vigilância, no qual esta é explorada nas suas relações com a simulação. O livro chama-se The Simulation of Surveillance: Hypercontrol in Telematic Societies. New York, NY: Cambridge University Press, 1996.

domingo, 9 de setembro de 2007

FILE 2007 - São Paulo

Hoje se encerra o FILE 2007, oitava edição do Festival Internacional de Linguagem Eletrônica, em São Paulo, no qual apresentei o trabalho "Máquinas Identitárias: vigilância digital, bancos de dados e perfis computacionais" no File Symposium.
Além do Symposium, o Festival contou com instalações, arte-mídia, games, arte sonora, cinema, performance. Dentre as instalações, destaco especialmente o trabalho do alemão Markus Kison - Roermond-Ecke-Schönhauser (2005), em que imagens de quatro webcams espacialmente distantes e distintas (um cruzamento na Dinamarca, uma lavanderia em Amsterdâ, um pátio em Berlim e um mercado na Holanda) são projetadas com a ajuda de uma construção espelhada em quatro modelos tridimensionais desses mesmos lugares. Um trabalho delicado, que remete às lanternas mágicas do século XIX, conforme descrição do próprio autor.

Ainda na sessão de instalações, outros trabalhos cujos temas ou linguagens se articulam com a nossa pesquisa: Alter Ego, de Alexa Wright [GRB], Vacant City Ghosts, de Bjorn Wangen [SWE], The Ball in the hole, de Silvano Gallani & Eleonora Oreggia [ITA] e Dreamlines , de Leonardo Solanas [ARG].

No File Mídia Arte, que reúne mais de 200 trabalhos, listo alguns (sem nenhum critério de valor) que abordam temas privilegiados neste blog:

My Google Search History, de Albertine Meunier [FRA]

"My Google Search History is a set of movies, sounds and text inventory with all my search requests done since 2006 on Google search engine. Displayed as an inventory, my searchs show a full selfportrait. Like a big souvenir movie, this video can refresh the small things i was looking for at specific moments. Beyond this autoportrait feature, this project highlights privacy concerns on internet and more particularly privacy concerns on personal data and Google. With this video we can easily see the incredible amount of personal information Google has on ourselves. This inventory allows you to peep into my privacy as Google can".

Self-portrait, de Ethan Ham [USA]

"The photos in Self-Portrait come from a software search through the millions of photos on flickr.com. Using facial-recognition, the software seeks out photos that are likely to contain the artist Ethan Ham. Self-Portrait takes the mechanical process of photography and extends the machine's role to include editorial selection."

Public Secrets, de Erik Loyer & Sharon Daniel

"Public Secrets is a multi-vocal narrative that links individual testimony and public evidence, social theory and personal statements, in an effort to engage the public in a critical dialogue about crime and punishment and challenge the assumption that imprisonment provides a solution to social problems. A collaboration with artist/scholar Sharon Daniel."

Vanishing Point, de Mauricio Arango [COL]

"Vanishing Point is a presentation of the world as it responds to international newspaper coverage - not a measure of what the world is, but of what is most newsworthy. Consequently, countries that receive less media coverage gradually disappear from view. It consists of a projection of an interactive world map -connected to a database fed by international news sources- set against a reading area in which a daily copy of selected newspapers is displayed. At the end of every day, those newspaper copies are piled up on a shelf. After a few weeks the accumulated piles of newspapers and the projection of the resulting world map offer a poignant contrast".

Flickr Graph, de Marcos Weskamp [ARG]

"Flickr Graph is an application that explores the social relationships inside flickr.com. It makes use of the classic attraction-repulsion algorithm for graphs. Start exploring your contacts by entering your flickr username or the email address you used to register there."

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Sousveillance Culture


O Rhizome.org coordena, em parceria com o Conflux 2007, um painel de debates sobre Sousveillance Culture, com a participação dos artistas Amy Alexander, Jill Magid and Hasan Elahi. Extrato abaixo e mais informações no próprio Rhizome.org.

"Rhizome is organizing a panel in conjunction with Conflux, on sousveillance, the practice of watching from below (sous-) rather than above (sur-). A diverse group of artists whose work engages surveillance will explore the cultural and political implications of sousveillance, which tends to be discussed as empowering when manifest as a "taking-back" of cameras or the rising-up of "little brother," but which also unfolds in an era of increased self-surveillance, encouraged by both the government and the culture of participatory and 'transparent' media. Panelists include artists Amy Alexander, Jill. Magid and Hasan Elahi, and moderator Marisa Olson, Editor and Curator, Rhizome."

O termo "sousveillance" tem sua autoria reivindicada por Steve Mann, mas vem sendo apropriado de formas variadas por artistas, ativistas e pesquisadores. Algumas definições do próprio Mann:

"Sousveillance is a form of “reflectionism,” a term invented by Mann (1998) for a philosophy and procedures of using technology to mirror and confront bureaucratic organizations. Reflectionism holds up the mirror and asks the question: “Do you like what you see?” If you do not, then you will know that other approaches by which we integrate society and technology must be considered ... Reflectionism becomes sousveillance when it is applied to individuals using tools to observe the organizational observer. Sousveillance focuses on enhancing the ability of people to access and collect data about their surveillance and to neutralize surveillance. As a form of personal space protection, it resonates with Gary Marx’s (2003) proposal to resist surveillance through non-compliance and interference ‘moves’ that block, distort, mask, refuse, and counter-surveil the collection of information".

Ou, ainda segundo o mesmo autor:

"There are 2 main definitions, which are approximately equivalent, but each capture slightly different aspects of sousveillance:
1. Inverse surveillance: to watch from below;
2. Personal experience capture: recording of an activity by a participant in the activity. There is already a certain legal precedent for audio sousveillance, e.g. "one-party" recording of telephone conversations enjoys greater legal protection than recording by a person who is not a party to the conversation. In most states, audio surveillance is illegal, but audio sousveillance is legal".

Efeitos de intimidade e "Retrato Celular"



Nessa semana estreou Retrato Celular no canal Multishow. O programa, dirigido por Andrucha Waddington, é exclusivamente filmado com câmeras de telefones celulares por jovens que relatam com e para as suas câmeras as próprias vidas. Na Cinética, Cezar Migliorin e Ilana Feldman comentam o programa no texto Instantâneos sobre Retrato Celular.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Faceless

Entrevista no Écrans com Manu Luksch, diretora do longa metragem de ficção científica Faceless, realizado exclusivamente com imagens capturadas por câmeras de vigilância, no quadro do Manifesto for CCTV filmmakers. Extrato:
"FACELESS dresse un portrait d’un monde sous surveillance temporelle. L’anxiété vis-à-vis du futur et la culpabilité envers le passé cause un profond désarroi, ainsi le nouveau système temporel consiste en une présence parfaite, symbolisée par le time code non chronologique".

Já escrevi aqui sobre o Faceless, que está sendo apresentado no Ars Eletronica deste ano. Trecho do filme:

terça-feira, 4 de setembro de 2007

RFID e vigilância


Esse post vem do Carnet de Notes: senado da California aprova lei que proíbe o uso de etiquetas RFID (identificação por rádio frequência) em pessoas sob vigilância. Tais etiquetas, cada vez mais comuns em produtos, cartões de créditos, animais etc, permitem identificar, armazenar dados e rastrear seus "portadores" ou "hospedeiros", e vêm sendo também cogitadas como meio de monitoramento e controle de pessoas que representam algum tipo de periculosidade, como criminosos, ou que necessitam de cuidados especiais, como pacientes médicos.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Open-air surveillance cinema


Interessante trabalho de Michelle Terran (CA) - Friluftskino: Experiments in open-air surveillance cinema - no Urban Interface, Oslo. Vejam descrição abaixo:

Friluftskino: Experiments in open-air surveillance cinema
Every day from 13th to 20th of September at 21h.
Throughout the city of Oslo. Rain or shine. Popcorn and seating provided.

"An after effect of the consumer use of wireless surveillance technology is the production of images. These video images, incidental in nature, are easily intercepted while walking through the streets with a video scanner, creating an alternate journey into the non-places of the city created through surveillance use. Spatial boundary conventions of private and public, inside and outside are challenged by the reality of the radio transmission which moves beyond walls and onto the street. By accessing these images one is also offered a view into how the public depicts and represents itself through the use of these readily available technologies and a glimpse into the ways the city itself is redefined and restructured through migratory and economic flows and shifts.
For ‘Frilufts Kino‘, the city of Oslo will provide the source and the projection surface for an open-air cinema. Once a day, for a period of seven days, different places throughout the Oslo districts of Grønland and Grunerløkka will be used as locations for a ‘Frilufts Kino’. Using a powerful video beamer and video scanner, live surveillance intercepted from wireless CCTV cameras will be captured and then rebroadcasted upon the city walls. The live transmission will ideally last as long as a feature length film. The extended time of the intervention is intended to allow one to contemplate the live image which, contrary to being titillating and action-filled, is actually empty and still, a place of non-action. They are spaces to be filled, through subtle shifts that take place within the observed scene, or through the viewer’s own physical or imagined intervention."

Telefones celulares como instrutores comportamentais


Pesquisadores de Palo Alto desenvolvem um tipo de telefone celular que funciona como um preceptor pessoal, fornecendo a seus usuários orientações e instruções sobre a melhor forma de se comportar em situações específicas. O novo dispositivo móvel chama-se "Personal Performance Coach" e utiliza diversos sistemas de monitoramento das ações dos usuários, como GPS, microfone e monitor cardíaco para coletar dados pessoais que são enviados para uma central de análise e posteriormente reportados aos usuários através do telefone. Um dos principais objetivos do dispositivo (ainda um protótipo) é melhorar a performance profissional de indivíduos, monitorando as suas ações ao longo de entrevistas com clientes, reuniões de equipe e negociações, corrigindo o seu comportamento em tempo real ou dando um feedback posterior.
Este dispositivo ilustra muitíssimo bem o quanto a vigilância e o monitoramento contemporâneos encontram na otimização da performance um de seus alvos e justificativas privilegiados, acentuando a sua diferença frente aos dispositivos modernos que incluíam a interiorização da norma e dos valores a ela associados como condição de sua eficiência. Se o controle social moderno baseava-se na formação e prescrição de valores, focalizando os suportes de uma consciência que sustentava a ação, o controle social contemporâneo visa diretamente a própria ação, modulando o comportamento pela promessa da otimização da performance e pela exigência de melhores resultados nos diversos planos da vida profissional, pessoal, social etc.

Mais detalhes sobre o "Personal Performance Coach" no Technology Review. No mesmo site, duas outras matérias sobre coleta de dados pessoais e monitoramento do comportamento através de dispositivos móveis: Making Phones Polite e Gadgets That Know Your Next Move. Esta última menciona uma pesquisa que envolveu a coleta de dados comportamentais de telefones celulares de 100 estudantes do MIT ao longo de mais de 350.000 horas. O propósito da pesquisa era desenvolver técnicas de análises destes dados de modo a prever o comportamento diário e as filiações sociais dos estudantes a partir de um conjunto limitado de dados iniciais. Os resultados da pesquisa "demonstraram", por exemplo, que a partir de dados sobre as atividades e localização de um estudante no período da manhã, era possível prever com 79% de acuidade as suas próximas atividades e trajetos ao longo do dia.

domingo, 2 de setembro de 2007

Mecanismos de busca e Vigilância

Venho apresentando e discutindo em artigos e neste blog as relações entre os mecanismos de busca (Google, Ask, Yahoo etc) e a vigilância digital. Vejam mais uma matéria da BBC sobre o tema, retomando o lapso da AOL (que publicou na Internet o histórico de buscas de milhares de usuários ao longo de três meses) e os procedimentos usuais de outros motores de busca, como o Google. Vale lembrar que os questionamentos recentes em nome da proteção da privacidade dos usuários destes serviços levou a alterações de algumas de suas práticas, como a redução do tempo de arquivamento do histórico de busca dos seus usuários. Mais informações sobre este último ponto em outro post.