terça-feira, 22 de junho de 2010

Lançamento em Campinas e Ciclo Seminários LABJOR



Dia 23/06, das 14:00 às 18:00 h na UNICAMP, participarão do I Ciclo de Seminários do Mestrado de em Divulgação Científica e Cultural/LABJOR os organizadores do livro "Vigilância e Visibilidade: espaço, tecnologia e identificação". Marta Kanashiro fará a coordenação do evento e do debate, Rodrigo Firmino fará a conferência "Vigilância, tecnologia, espaço e cidade: questões de segurança e controle no espaço urbano" e eu encerrarei o ciclo com a conferência "Máquinas de fazer ver, crer, prever: tecnologias, vigilâncias e visibilidades contemporâneas".
Mais tarde, a partir das 19 h, o livro será lançado na Livraria Café e Arte. Coordenadas abaixo.
Data: 23 de junho (próxima quarta)
a partir de 19h00
Local: CAFÉ E ARTE
Rua Maria Ferreira Antunes,06
Ponto de referência: Em frente a Praça do Coco
Barão Geraldo - Campinas - SP
CEP: 13084-180
tel: 19-3289 3861

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Entrevista Anonimato na Internet

Concedi uma entrevista para o Instituto Humanitas Unisinos sobre Anonimato na Internet. Disponibilizo a versão completa abaixo, já que a que consta no site do IHU foi editada, ainda que com poucos cortes. Ressalto o ótimo trabalho de entrevistas que o IHU tem feito, coisa cada vez mais rara no jornalismo.

IHU On-Line – O anonimato na internet é algo legítimo?
Sim, o anonimato na Internet é absolutamente legítimo. Tão legítimo quanto a privacidade e a liberdade de comunicação, informação e expressão. É importante ressaltar que, no caso da Internet, esses três aspectos estão entrelaçados e que a quebra do anonimato pode colocar em risco tanto a liberdade quanto a privacidade dos indivíduos e dos dados que hoje circulam na rede.
A discussão sobre a legitimidade do anonimato em esferas ou espaços públicos não é um privilegio da atualidade e marcou calorosas disputas na modernidade. Parte dessa discussão está atrelada à utopia de uma sociedade transparente, a qual tem muitas faces. Para citar uma delas, aquela que paradoxalmente constitui um dos lados mais “sombrios” do “Século das Luzes” é exatamente a que vai defender a ordem social intimamente atrelada a uma visibilidade total, à utopia política de um olhar vigilante. Um dos mais conhecidos projetos dessa utopia é o sonho panóptico de Jeremy Bentham. Conhecidos também são os temores que o anonimato despertou com o surgimento da vida urbana e das massas modernas. Toda uma polícia e uma política de identificação se constituiu na tentativa de distinguir os traços de uma identidade individual nos rostos e corpos indiferenciados e anônimos das multidões urbanas. Na contra-corrente desses processos, toda uma outra linhagem de pensadores e práticas defende o anonimato como um princípio fundamental para o pleno exercício da vida pública e da liberdade em coordenação com a proteção da vida privada. Não cabe retomar toda essa discussão aqui, mas aproveito para indicar um bom texto do Sérgio Amadeu, onde ele retoma parte desse debate moderno para discutir o problema na esfera pública interconectada que é a Internet (Amadeu, S. Redes cibernéticas e tecnologias do anonimato: confrontos na sociedade do controle).
Hoje tanto o temor do anonimato quanto uma tentativa de ampliar os sistemas de identificação ressurgem com a Internet, mas seguramente qualquer tentativa de quebrar o anonimato é muitíssimo mais perigosa para a sociedade do que a sua existência como princípio legítimo e aliado à privacidade e à liberdade.
IHU On-Line – E, em sua opinião, o anonimato na internet deve ser protegido?
Sim, deve ser protegido no sentido de garantido, assegurado, sem dúvida. Pois sem o anonimato, a Internet se torna um espaço de controle e de vigilância potencial. Como bem mostram vários estudos, entre os quais destaco os do Alexander Galloway (Protocol e The Exploit), nossas comunicações na rede são operadas por protocolos (como o TCP/IP), assim como deixam rastros que podem ser retraçados, o que implica a possibilidade do controle. Entretanto não há nesta mesma estrutura e na arquitetura da rede nada que exija o vínculo de tais rastros a indivíduos especificamente identificados. Ou seja, essa estrutura acolhe e assegura o anonimato, ainda que o número do IP possa ser rastreado. E isso deve ser mantido. Na verdade, a garantia do anonimato é o que, digamos, nos “protege” do controle e do vigilantismo na Internet.
IHU On-Line – Quem quer o anonimato na internet e por quê?
Se me permite, a pergunta deveria ser: quem não quer o anonimato e por quê? Digo isso pelo fato de a Internet ser, desde o seu surgimento até hoje, apesar de algumas tentativas pontuais contrárias, uma rede de comunicação distribuída baseada no anonimato. E, com essa estrutura, ela se tornou o que é hoje, uma rede fundamental e essencial em nossa vida social, política, econônica, cultural, cognitiva etc. Assim, devemos nos perguntar primeiramente quem quer que a Internet deixe der ser o que ela é e por quê? Segurança e interesses comerciais e corporativos são a base de boa parte dos argumentos recorrentes contra o anonimato na Internet. É plenamente legítima e necessária a defesa da segurança na Internet, mas não creio que esta seja inimiga do anonimato, ao contrário. Mesmo porque, em caso de crimes, a quebra do anonimato já está prevista e garantida pela lei.
Mas voltando à sua pergunta original, acho que há pelo menos dois níveis a serem considerados: um primeiro, mais “vital”, no sentido forte do termo, é que o anonimato é absolutamente necessário para indivíduos e grupos que vivem em regimes totalitários ou sob censura, para os quais muitas vezes se comunicar anonimamente é uma questão de sobrevivência muito concreta. Um segundo nível consiste não tanto ou apenas no anonimato em si, mas em uma série de outros processos que estão articulados a ele na Internet, a liberdade de comunicação e expressão, a privacidade, a possibilidade e abertura em se reinventar modelos de partilha de informação, conhecimento, bens etc.
IHU On-Line – Como você vê a relação da fama e do anonimato na internet?
Fama e anonimato convivem plenamente e profusamente na Internet, território absolutamente cambiante e marcado pela diversidade. Estamos falando agora não mais do anonimato, digamos, “estrutural” ou “arquitetural”, mas no desejo de as pessoas permanecerem anônimas ou conquistarem alguma fama. Por um lado, há um impulso e uma corrida pela fama muito presente em diversos domínios da rede, reproduzindo os ideais da cultura de massas com novas roupagens. Por outro lado, há dinâmicas colaborativas em que sistemas de reputação convivem com o anonimato dos participantes. E há, ainda, processos sociais, políticos, estéticos cujo “pathos” passa pelo anonimato. A mais recente e breve ‘mania’ que chamou a minha atenção neste sentido foi o Chatroulette, onde uma das grandes excitações, à diferença das redes sociais “entre amigos eleitos ou relativamente conhecidos”, é o encontro aleatório com o desconhecido, uma roleta de anônimos interconectados. Não sei se o Chatroulette vai vingar ou não para além de seu sucesso inicial, mas trata-se de um dispositivo interessantíssimo e é instigante imaginar esse processo coletivo de encontros aleatórios com o desconhecido.
IHU On-Line – Os engenheiros que viabilizaram a internet, fizeram isso pensando no anonimato. Para você, que história social da internet, enquanto mídia e a partir do anonimato intrínseco, criamos?
A pergunta é muito ampla e certamente não sou capaz de responder sem simplificações e sem deixar de fora uma série de elementos importantes. Para falar apenas de um ponto, eu diria que a história da Internet é marcada por uma extrema inventividade, uma grande capacidade de se desviar dos fins que lhes são propostos e isso desde seu início, em que se desviou dos fins estritamente militares e acadêmicos e desde então vem sendo apropriada de múltiplos modos e em muitas direções, constituindo modelos alternativos não apenas de comunicação, mas de produção e circulação da informação e do conhecimento, de sociabilidade, de ação política, social, cultural, assim como dinâmicas alternativas de mercado, trocas etc. É claro que essa inventividade não se dá num território de plena harmonia, mas num campo de embates e disputas cada vez mais acirrados em que concorrem também modelos centralizados, massificados, corporativos, conservadores etc. Mas de toda forma, na Internet esses embates são possíveis, enquanto nas mídias massivas as relações de força eram muito mais cristalizadas. E, voltando ao anonimato, toda essa inventividade que atravessa a história da Internet sem dúvida não se deve apenas ao anonimato mas a múltiplos fatores atuando de forma conjunta e extremamente complexa, mas creio que ela estaria muito ameaçada sem ele. Pois o que há de mais interessante é que ela não está encerrada e não pode ser explicada nem pelo gênio de alguns indivíduos, nem pela gestão de certas corporações, nem por ações de um pequeno número de centros. Embora haja tudo isso na rede (egos inflados, grandes corporações, centros), a inventividade que importa e que me parece mais efetiva na história da Internet é essa inventividade distribuída, coletiva, atrelada, entre outras coisas, às redes do anonimato.

domingo, 16 de maio de 2010

Vigilância e Visibilidade: espaço, tecnologia e identificação


Acaba de ser lançado o livro que organizei com Rodrigo Firmino e Marta Kanashiro: Vigilância e Visibilidade: espaço, tecnologia e identificação (Sulina, 2010). Vejam o release abaixo. Comunico em breve a data e o local do lançamento no Rio.


A Editora Sulina
apresenta
VIGILÂNCIA E VISIBILIDADE
Espaço, Tecnologia e Identificação
Orgs.
Fernanda Bruno, Marta Knashiro e Rodrigo Firmino
(Coleção Cibercultura)
Este livro parte de uma inquietação comum a diversos domínios de saber, de práticas sociais, de experiências e experimentações do espaço urbano, de produções midiáticas e artísticas: os parâmetros e limites segundo os quais estávamos habituados a ordenar o ver e o ser visto estão em trânsito. Ampliam-se e modificam-se as margens do visível, os modos de fazer ver, assim como os modos de ser visto. Desde o alto e da amplitude da “visão” dos satélites e tecnologias de geolocalização (GPS, GIS) até a visualização miniaturizada e individualizada das pequenas telas de celulares, palmtops e laptops, passando pelas câmeras de vídeo-vigilância cada vez mais presentes tanto nos espaços públicos quanto privados, ou ainda pelos discretos sensores e tecnologias que monitoram o espaço físico e o informacional, tornando sensíveis processos usualmente desapercebidos e criando o que se convencionou chamar de realidade ou espaço ampliados, assim como formas sutis de vigilância de dados.
Autores: André Lemos, Consuelo Lins, Danilo Doneda, David Lyon, David Murakami Wood, Fábio Duarte, Fernanda Bruno, Henrique Antoun, Hille Koskella, Marta Kanashiro, Maurício Lissovsky, Nelson Arteaga Botello, Paulo Vaz, Rafael Barreto de Castro, Rodrigo Firmino, Rosa Maria Leite Ribeiro Pedro, Teresa Bastos.
Capa: Letícia Lampert
Preço de Capa: R$ 38,00
Nº de páginas: 296
ISBN: 978-85-205-0553-3
Departamento editorial e divulgação: (51) 3019. 2102
http://www.editorasulina.com.br/detalhes.php?id=503
Editora Meridional/Sulina
www.editorasulina.com.br
Tel (51) 3311-4082
Fax (51) 3264-4194

domingo, 18 de abril de 2010

Sousveillance: makeup and camouflage

Logo após escrever o último post conheci este ótimo trabalho do Adam Harvey no campo da sousveillance (contra-vigilância). Uma série de projetos que driblam os sistemas de reconhecimento de face embutidos na vídeo-vigilância. Abaixo, o projeto de desenvolvimento de padrões de maquiagem capazes de enganar as câmeras e, em seguida, camuflagens baseadas em subversões dos algoritmos que operam reconhecimento de face.

domingo, 11 de abril de 2010

Intelligent Video Surveillance (I): o infra-individual e o controle


Uma das questões recorrentes acerca das sociedades de controle e das formas de vigilância que lhes são próprias, consiste nas possibilidades de subjetivação aí em jogo, uma vez que um aspecto do controle como regime de poder característico das sociedades contemporâneas é sua atuação e investimento no âmbito do que proponho chamar de "infra-individual", isto é, em "alvos" ou "targets", para usar uma terminologia comum no marketing, que não consistem no indivíduo enquanto totalidade, unidade ou interioridade, mas sim em ações, comportamentos, ritmos, movimentos, traços parciais - corporais, informacionais etc - que podem inclusive estar desvinculados, na sua base, de formas de identificação dos indivíduos que os originam.
Com essa questão no horizonte, resolvi explorar um dispositivo de vigilância relativamente "novo", que já me inquietava fazia algum tempo - a vídeo-vigilância inteligente -, que atualiza essa dimensão infra-individual do controle.
Esta exploração resultou num texto "A Brief Cartography of Smart cameras: proactive surveillance and control" que será publicado como capítulo do livro ICTs for Mobile and Ubiquitous Urban Infrastructures: Surveillance, Locative Media and Global Networks (Orgs. Rodrigo Firmino, Fábio Duarte e Clovis Ultramari) e numa conferência no Simpósio Internacional Identificación, Identidad y Vigilância en América Latina na UAEM, México (ver post). Reproduzo abaixo alguns trechos do meu texto e da conferência:

"O que é ou pretende ser a vídeo-vigilância inteligente? Este dispositivo é anunciado como uma nova “geração” da vídeo-vigilância que exerce modos de monitoramento automatizado do comportamento. Na maioria dos casos, pretende-se que tais câmeras reconheçam e diferenciem padrões regulares de conduta e ocupação do espaço, tidos como seguros, e padrões irregulares, categorizados como suspeitos, perigosos ou simplesmente não funcionais. As chamadas “smart cameras” ou “intelligent video surveillance” consistem em softwares que se adicionam às câmeras e filtram ou lêem em tempo real as imagens segundo algoritmos que ressaltam indivíduos, objetos, atitudes que devem ser o foco de atenção da “cena”, conforme as aplicações pré-definidas no sistema. Um corpo parado por um dado período de tempo muito próximo à faixa de segurança que antecede os trilhos de uma estação de metrô, por exemplo, deve ser automaticamente ressaltado no painel de vigilância de modo a possibilitar uma intervenção a tempo de impedir o possível salto mortal de um suicida potencial. O mesmo dispositivo pode ressaltar automaticamente na tela um objeto deixado na estação, indivíduos ou grupos de pessoas com comportamentos suspeitos, corpos se movimentando no contra-fluxo ou qualquer situação previamente categorizada como devendo ser destacada no campo atencional da máquina e/ou dos operadores de câmera. Nos termos técnicos:
Intelligent visual surveillance systems deal with the real-time monitoring of persistent and transient objects within a specific environment. The primary aims of these systems are to provide an automatic interpretation of scenes and to understand and predict the actions and interactions of the observed objects based on the information acquired by sensors. (Intelligent distributed video surveillance systems, Sergio A. Velastin, Paolo Remagnino, Institution of Electrical Engineers, 2006, p. 1)"
"Nesta delegação perceptiva e atencional são definidos e reiterados não apenas parâmetros técnicos e administrativos de eficiência, mas também parâmetros de visibilidade, vigilância e controle do espaço e do comportamento humano. É precisamente o que nos interessa destacar: tais sistemas evidenciam o que se define hoje como devendo ser visível e notável no campo da vigilância.
Num contexto de excesso de imagens e escassez de atenção, que é o caso dos operadores de vídeo-vigilância, mas também o das sociedades contemporâneas em geral, é preciso filtrar o que é relevante. Nestes sistemas, só vale ser visto, já está claro, o que é irregular, não usual.
Mas é preciso lembrar: o irregular é índice de ameaça ou suspeita, eis porque ele deve ocupar a frente da cena. Mais ainda: a irregularidade em questão não se confunde mais com os focos dos regimes de visibilidade disciplinares, que liam sob o desvio comportamental, uma alma anormal. Aqui, o desvio comportamental é índice de um risco iminente, de uma ação indesejada ou ameaçadora, não importando tanto as motivações ou traços psicológicos que subjazem à ação.
Claro que essa tarefa de flagrar irregularidades ou mesmo de antecipá-las, já está presente na vídeo-vigilância convencional e em outras formas de inspeção humana ou maquínica. Entretanto, neste caso, a atenção ao irregular já está incorporada à própria máquina de visão, tornando mais explícito o tipo de ordenação do visível aí presente, uma ordenação sob a ótica da suspeita, e que pretende se antecipar aos próprios eventos (...)
Ora, diferentemente da escala ótica disciplinar, os sistemas de vídeo-vigilância inteligentes colocam em cena uma observação do cotidiano que rastreia os corpos e os espaços por um movimento de varredura que não se preocupa tanto nem com a minúcia do detalhe nem com a objetivação das diferenças individuais que permitam ver através dos gestos, atividades e desempenhos, uma interioridade não menos rica em detalhes.
Trata-se de um olhar algorítmico menos atento aos detalhes e profundidades do que aos padrões de superfícies e movimentos dos corpos, os quais são apreendidos mais em seus contornos gerais do que em sua individualidade. Certos softwares utilizam, inclusive, o termo “silhouete” para designar os padrões correspondentes a determinados movimentos corporais."
"Nos encaminhamos para um segundo aspecto que pretendo destacar nestes sistemas: o foco de observação é menos a identificação dos indivíduos do que as suas ações e comportamentos; mais do que o agente, focaliza-se a ação. Num mundo altamente institucionalizado e mediado como o nosso, os mecanismos de controle, no lugar de focalizarem os suportes de uma consciência que sustenta a ação, se organizam em torno da própria ação (Lianos, 2008).
Vejam o que diz o pesquisador James W. Davis, responsável pela construção de um sistema de "intelligent video" voltado para análise de comportamento e antecipação de situações que possibilitem perseguir automaticamente um alvo suspeito, alem de incluir visão de 360O (fish-eye lens) e imagem de alta resolução:
We care what you do, not who you are. We aim to analyze and model the behavior patterns of people and vehicles moving through the scene, rather than attempting to determine the identity of people. ”
We are trying to automatically learn what typical activity patterns exist in the monitored area, and then have the system look for atypical patterns that may signal a person of interest -- perhaps someone engaging in nefarious behavior or a person in need of help”.
As smart cameras e seus sensores encarnam um tipo de poder e conhecimento sobre corpos, comportamentos e modos de habitação do espaço, que os monitora à distância, transformando em informação suas ações no espaço físico. Essas informações permitirão extrair padrões do que seriam as condutas regulares e do que seriam as condutas irregulares. Tais padrões devem, contudo, possibilitar intervenções, planejamentos, cálculos seja no campo da vigilância e da segurança, detectando comportamentos suspeitos, prevendo e prevenindo riscos, seja no campo da gestão, do consumo ou da ordenação dos corpos e seus fluxos, provendo esse espaço de informações que induzam trajetórias, capturem a atenção, mobilizem ações e interesses. A intelligent video surveillance, em certa medida, vai de par com os ambientes ditos inteligentes, que adicionam ao espaço camadas informacionais, ampliando as suas possibilidades de interação com os corpos presentes e permitindo que estes sejam interpelados de forma contextual pelo próprio ambiente em seu entorno. Nos termos de Manovich (2006),
By tracking the userstheir mood, pattern of work, focus of attention, interests, and so onthese interfaces acquire information about the users, which they then use to automatically perform the tasks for them. The close connection between surveillance/monitoring and assistance/augmentation is one of the key characteristics of the high-tech society.""

Referência dos trechos reproduzidos acima:
Bruno, Fernanda. A Brief Cartography of Smart cameras: proactive surveillance and control. In: Firmino, R; Duarte, F.; Ultramari, C. (Orgs). ICTs for Mobile and Ubiquitous Urban Infrastructures: Surveillance, Locative Media and Global Networks. IGI Book, 2010 (no prelo).

sábado, 10 de abril de 2010

Notas e impressões: Simpósio Internacional Identificación, Identidad y Vigilancia en América Latina

Antes tarde...eis aqui breves notas e impressões sobre o Simpósio Identidad, Identificación y Vigilância en América Latina. A conferência de abertura, proferida por David Lyon, forneceu um ótimo panorama sobre a temática geral do evento. Lyon é um dos pesquisadores mais importantes da área de "surveillance studies" e sua fala no evento focalizou seu último trabalho Identifying citizens: ID cards as surveillance, o qual recomendo a que tem interesse sobre o tema. Lyon explora o diagnóstico de que vivemos uma ampliação das formas de governo pela gestão da identidade (identity management). Chama atenção para a ambiguidade deste processo, que transita entre a cidadania e a discriminação. Esta ambiguidade reapareceu em vários trabalhos do Simpósio, mas de forma diferenciada. Simplificadamente, na América Latina, essa ambiguidade está menos atrelada ao temor do "outro", do estrangeiro, ou de uma ameaça que vem de "fora", do que às nossas complicadas dinâmicas de inclusão/exclusão social. Retomo este ponto adiante.
A conferência de Nelson Botello e Roberto Fuentes Rioda, organizadores do evento, foi excelente para visualizarmos o que os autores chamam de "guerra pela identidade" no México, especialmente presente no embate pelo controle das bases de dados sobre os cidadãos mexicanos, as quais estão divididas em dois grandes bancos - um biométrico e outro político - e que são mantidos apartados devido ao histórico de fraudes eleitorais no país. Em suma, o Estado não pode cruzar os dados biométricos com os dados geográficos dos indivíduos, uma vez que isso poderia a levar a abusos e manipulações. Outro dado significativo da fala de Botello e Rioda foi mostrar como a expansão dos dispositivos de vigilância no México estão atreladas ao sequestro e à morte do jovem Fernando Marti, que se tornou emblemática da "insegurança" justificando medidas nos mais diversos setores da segurança e da vigilância. Embora vejamos esses "casos exemplares" de grade repercussão midiática figurarem em outras partes do mundo, são especialmente notáveis as semelhanças com o Brasil. Nelson Arteaga Botello acaba de lancar o livro Sociedad de la Vigilancia en el Sur-Global: mirando América Latina (UEAM, 2009). Recomendo!
Participei como conferencista convidada e falei sobre "Vigilância proativa e controle: o caso da vídeo-vigilância inteligente". O debate com os colegas e o público presente foi ótimo e enriquecedor; espero fazer um post com mais detalhes sobre a conferência.
Entre os trabalhos apresentados no segundo dia, destaco o excelente trabalho de Hille Koskela sobre o Texas Virtual Border Watch. Foi interessante notar os desdobramentos do trabalho de Koskela e do seu próprio "objeto de análise" em relação à sua primeira apresentação no Simpósio de Curitiba: embora a retórica do Texas Virtual Border Watch permaneça fortíssima, os dados mostram o seu descontrole e fracasso em criar uma comunidade virtual de observadores-controladores de fronteira.
Um prazer também ouvir e ver o belo trabalho de Maurício Lissovsky sobre fotografias da polícia política brasileira. Agamben e Bakhtin numa exploração sobre os jogos de exibição e ocultamento, de observador e observado, de produção de marcas e autorias, de uma vigilância fotográfica marcada pela enunciação e que se torna, no fim, auto-retrato. Lindo trabalho, que nos ensina a exploração estética do olhar policial.
Ainda no campo da estética, foi uma ótima surpresa a participação de Milena Szafir com suas instigantes Performances Panopticadas. Conhecia apenas superficialmente o trabalho da Milena, que promove um ótimo curto-circuito entre a vigilância, a arte e o espetáculo, e foi uma grata satisfação rever suas performances no Simpósio.
Retornando ao tema da identificação e da vigilância, os ótimos trabalhos de Marta Kanashiro & Danilo Doneda e de Rodrigo Firmino & David Wood levaram ao público mexicano uma ótima reflexão sobre as tensões entre inclusão/exclusão, cidadania/controle na gestão da identidade civil no Brasil. Kanashiro & Doneda focalizam a implementação do Registro Único de Identidade Civil, enquanto Firmino & Wood questionam as fronteiras entre a cidadania e o controle nos sistema de identificação no Brasil.
Dentre os trabalhos relacionados à vida, à política, ao território e às identidades mexicanas, foi especialmente bom ouvir as pesquisas sobre as identidades indígenas no México, com as quais aprendi um pouco sobre a riquíssima e complexa cultura mexicana e seus embates identitários.
Last but not least: meus agradecimentos especialíssimos a Nelson Arteaga Botello, Roberto Fuentes Rioda e Vanessa Lara e toda a equipe da UAEM pela excelente organização do Simpósio, pela acolhida e hospitalidade impecáveis e pelos saborosíssimos momentos sociais e gastronômicos. Gracias!
Este segundo Simpósio da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância foi fundamental para a consolidação desta rede e dela esperamos ótimos desdobramentos acadêmicos, intelectuais e políticos. O próximo Simpósio deve acontecer na Argentina, mas ainda está sujeito a confirmação.

terça-feira, 16 de março de 2010

Simposio Identidad, Identificatión y Vigilancia en América Latina


Começa hoje o Simpósio Internacional Identidad, Identificación y Vigilancia en América Latina na bela Universidad Autónoma des Estado de México. David Lyon faz a conferência de abertura - "Por favor, muéstreme su identificación: surveillance and identification in Latin América". Amanhã farei a primeira conferência do dia, cujo tema é "Vigilância proativa e controle: o caso da vídeo-vigilância inteligente". Mais duas conferências estão no programa do Simpósio: "Privacidad y identificación: el contexto latinoamericano", de Katitza Rodríguez (EPIC, International Privacy Program) e "Transparencia y protección de datos en México", de Hiram Piña Libién (Universidad Autónoma des Estado de México).
Além das conferências, diversos pesquisadores apresentarão seus trabalhos em mesas ao longo dos três dias do Simpósio. A programação completa está disponível aqui e espero postar as minhas impressões a cada dia do evento. Acompanhe também os posts do twitter, mais breves porém mais próximos do tempo do evento.
Saludos!

quinta-feira, 4 de março de 2010

Cuide de você (Comentário de Ilana Feldman)

Reproduzo o ótimo comentário que Ilana Feldman fez sobre meu último post acerca da exposição Cuide de Você (Sophie Calle). Assim que o tempo permitir, continuo o diálogo e agradeço desde já a Ilana por me dar a rara oportunidade de fazer a palavra circular neste blog.


"Fernanda,

Um prazer ler teus belos comentários. E este mesmo prazer me mobiliza a comentar algumas estratégias da Calle que, me parecem, caminham em sentido reverso do que dizes.

De antemão, é preciso dizer que vi a exposição aqui em São Paulo, no Sesc Pompéia, então minha percepção advém também de certa organização do espaço. Tendo em vista essa organização e disposição dos elementos na “cena”, meu primeiro questionamento, de saída, é a presença da carta original de X, na verdade um email, impressa em papel e distribuída aos espectadores ao final do percurso. Ora, se a exposição trata, prioritariamente, da questão da mediação, mediação que, a partir de leituras, análises, interpretações e dissecações de 107 leitoras, permite que mentalmente (e inventivamente) remontemos e reescrevamos esta, vale dizer, banal carta, por que a carta de X, a “carta em sim mesma”, precisa nos ser então revelada? Este gesto para mim, ao contrário de “multiplicar os lugares de fala a partir das passagens do individual ao coletivo” (algo que belamente acontece no filme Jogo de cena, de Eduardo Coutinho, como já comentaste aqui no blog), resvala em unívoca, estreita e simplória “vontade de verdade” (Nietzsche). Contraditoriamente então, em vez do elogio (ou da problematização) da mediação, temos simplesmente uma resposta a um desejo (tão culturalmente sedimentado) de acesso à verdade de uma suposta imediatez: o objeto de disputa e de discurso em si mesmo, fetichizado.

Outro ponto que me parece importante diz respeito ao repertório - burguês - dessas 107 mulheres escolhidas, cujas posições sociais são praticamente homogêneas, à exceção da papagaia, claro, da agente penitenciária e da adolescente dona do melhor comentário: “Ele se acha!”. Toco nessa questão da posição social porque o dispositivo que sustenta a exposição me parece sofrer de uma grave entropia: no geral, a diversidade das leituras encobre, a meu ver, uma mesma posição discursiva, uma mesma posição sentimental, marcada pelos códigos de reação do melodrama burguês - o ressentimento feminino -, ainda que vez ou outra haja algum humor. Porém, como Sophie Calle não é boba, o que ela faz para evitar esse lugar (re)sentimental? Ela convida profissionais liberais, mulheres “bem sucedidas”, dotadas de “talento” e de expertise técnica para “interpréter la lettre sous un angle professionnel”. Esta é a estratégia que mais me choca porque, ainda que ela seja uma interessante “arma” para a vingança do abandono e do amor perdido, ela se equipara a todas as outras estratégias de tecnificação e instrumentalização da linguagem. Estratégias que, como sabemos, sustentaram os mais terríveis regimes políticos e ainda hoje sustentam os mais terríveis modos de gestão empresarial.

Por fim, como o nome da exposição já diz, o “cuidado de si” - ainda que capitalizado na forma de um dispositivo “artístico e terapêutico”, como dizes - foi tornado um modo de gestão e administração da dor em que o feminino, no lugar do espaço coletivo e social da partilha, da transgressão e da traição (em relação à tradição), é revertido em mera “consultoria”.

Bem, Fernanda, desculpe o tão longo comentário, mas essa exposição me fez sair engasgada, para não dizer irada, e só a riqueza do teu post para me fazer conseguir desengasgar.

Beijo, Ilana"

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Cuide de você/Prenez soin de vous

Já no peúltimo dia no MaM/Rio, fui ver a exposição da Sophie Calle (Cuide de Você). Para quem não viu, a "pedra de toque" da exposição é um e-mail de ruptura amorosa escrito por "X", ex-namorado da artista. A partir desta carta, S. Calle cria mais um dos seus dispositivos a um só tempo artístico e terapêutico. Este é, ainda, especialmente feminino e vinga com humor o abandono chamando 107 mulheres para interpretar a carta, segundo seus talentos ou profissões: tradutora, filóloga, psiquiatra, atiradora, atriz, crimonologista, bailarina, juíza, musicista, cabalista, diplomata, vidente, mãe, muitas outras, e mesmo uma papagaia.

"J' ai reçu un mail de rupture. Je n'ai pas su répondre. C'était comme s'il ne m'était pas destiné. Il se terminait par ces mots : Prenez soin de vous. J'ai pris cette recommandation au pied de la lettre.J'ai demandé à cent sept femmes - dont une à plumes et deux en bois -, choisies pour leur métier, leur talento, d'interpréter la lettre sous un angle professionnel. L'analyser, la commenter, la jouer, la danser, la chanter. La disséquer. L'épuiser. Comprendre pour moi. Parler à ma place. Une façon de prendre le temps de rompre. A mon rythme. Prendre soin de moi."


Tomar ao pé da letra o cuidado de si é, no dispositivo de Calle, fazer circular a palavra, coletivizar a hermenêutica arrancando-a do retorno sobre si para dotá-la de um outro movimento, voltado para fora e para muitos, para outrem. Ao ponto que, ao final, a letra original implode por excesso de interpretação. No fim da exposição, mesmo antes, pouco importa o que escreveu X, pouco importa X; as versões, traduções, traições, reações, revisões, dissecções do seu texto interessam tão mais que sua forma e conteúdo originais!

O apagamento da dor e do amor perdido é o apagamento do próprio texto de X; vingança sob medida em se tratando de um escritor. Melhor que "deletar", queimar ou responder eloquentemente é oferecer o texto de X à sobre-interpretação pública, feminina e profissional - não há dor, amor, escritor que resista a um tal dispositivo. Em certos momentos, o dispositivo vai além do humor, franqueando de forma inquietante o limite da exposição do outro, e é o cômico (em sua face ridícula, no sentido que lhe atribui Aristóteles) que vige sobre X e sua carta.
Esse destino do texto (e aqui já saio um pouco da exposição ou nela abro parênteses) é o destino e o risco de toda escrita, como indica a bela leitura que Derrida faz do Fedro de Platão: a palavra escrita perde seu detentor, seu defensor, seu pai, arrisca afastar-se da verdade (no sentido platônico) e vagar por toda parte, sujeita a sentidos diversos. A escrita também é um phármakon, um artifício a um só tempo remédio e veneno, que vem em auxílio da memória, mas que a trai e a enfraquece, favorecendo a rememoração em detrimento da reminiscência (via régia do conhecimento verdadeiro para Platão). E agora enquanto escrevo me dou conta que a minha lembrança do Fedro tem ainda um outro sentido que a conecta com a exposição, uma vez que neste diálogo o problema da escrita é intimamente atrelado à questão "o que é o amor?".
Seguindo o fio das associações despertadas por Calle e retomando o que acho mais interessante neste e em outros trabalhos da artista (como o Douleur Exquise, muito mais belo): a expiação da dor pela multiplicação dos lugares de fala, pela passagem do individual ao coletivo, do dentro ao fora, do eu ao muitos ou a outrem. Estamos próximos aqui do sentido que Nietzsche quer potencializar na dor - não o sentido interno e íntimo, consequência de um erro confinado numa interioridade voraz, mas o sentido externo, ativo, em que "a dor não é um argumento contra a vida, mas, ao contrário, um excitante da vida, 'uma isca para a vida', um argumento em seu favor". (Deleuze, G. Nietzsche e a Filosofia).