domingo, 20 de maio de 2007

O Google e a nossa privacidade: jogos eletrônicos e perfis psicológicos.

Uma patente da Google revela planos de extrair perfis psicológicos do monitoramento de usuários de jogos on-line. Segundo matéria do The Guardian, um dos principais objetivos visados é a venda destes perfis para empresas de publicidade, de modo a oferecer produtos mais apropriados aos interesses, personalidade e temperamento dos usuários. Por exemplo, "jogadores que passam muito tempo explorando 'podem estar interessados em férias, então o sistema pode mostrar propagandas para férias. E aqueles que passam mais tempo conversando com outros personagens irão ver publicidade para telefones móveis."

Num artigo em co-autoria com meus orientandos de Iniciação Científica, analisei alguns serviços do Google, tendo em vista a sua potencialidade para a elaboração de perfis de usuários. O artigo pode ser acessado aqui: "O oráculo de Mountain View: o Google e sua cartografia do ciberespaço".

Retomando a matéria do The Guardian, a preocupação mais evidente e discutida concerne às ameaças à privacidade dos indivíduos. Sem dúvida, tal preocupação é fundamental, mas vale lembrar que ela não esgota o problema. Isso por três razões, para sermos breves:
1. porque boa parte do alcance e dos efeitos da elaboração de perfis psicológicos de usuários a partir do monitoramento de suas ações no ciberespaço independem da identificação dos indivíduos. Trata-se de um tipo de poder que convive relativamente bem com o anonimato daqueles sobre quem se exerce, não necessitando identificar pessoalmente os indivíduos.
2. porque o medo da violação à privacidade, embora justificado, mantém o foco na dimensão ideológica e mascarada do poder, se preocupando em denunciar tudo o que é feito sem o consentimento da consciência, da vontade e do desejo dos indivíduos. Esquece-se que o poder se exerce privilegiadamente ali mesmo onde a consciência, a vontade e o desejo dos indivíduos estão implicados. Maquiavel, Nietzsche e Foucault nos ajudam aqui.
3. porque a questão da privacidade precisa ser colocada sim, mas não simplesmente nos termos com os quais estamos habituados. As novas modalidades de coleta, registro e classificação de informações sobre os indivíduos e seus dados psicológicos e comportamentais, tais como as que figuram nos bancos de dados e perfis computacionais, requerem que se redefina o que se considera "informação pessoal" e "privacidade". A minha privacidade é ou não violada quando meus hábitos e ações são monitorados para montar perfis psicológicos que não me identificam em termos jurídicos? Além disso, em nossa cultura, a privacidade não é simplesmente um direito civil, mas também uma propriedade, logo algo que se pode conceber como mercadoria e que se pode "trocar" ou "vender" como bem quiser. Em suma, trata-se de repensar a noção de privacidade no seio das novas práticas de coleta, classificação e uso de informações sobre indivíduos, e que essa questão não seja apenas pensada no âmbito do direito ou da propriedade, mas também no horizonte das práticas de liberdade.

Um comentário:

paoleb disse...

oi, não consegui acessar o artigo, se vc puder enviar o link ou mesmo o artigo te agradeço. paola